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De NY a Damasco – Embaixador da França na ONU fala ao blog da posição do Brasil na Síria

gustavochacra

13 de junho de 2011 | 08h43

no twitter @gugachacra

A França espera que o Brasil mude de posição apóie a resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando a violência do regime de Bashar al Assad contra opositores na Síria, que deve ser votada nesta semana. A afirmação é do embaixador francês junto às Nações Unidas, Gérard Araud, em entrevista ao Estado. “A relutância do Brasil a se juntar a ela (ao apoio à resolução) provém do caso da Líbia”, disse o diplomata, se referindo às divergências em relação às operações da OTAN contra o regime de Muamar Kadafi. Na semana passada, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, indicou que o país não deve votar a favor da resolução, que não prevê sanções ou intervenção externa, diferentemente do caso líbio.

A resolução já contaria com nove dos 15 votos necessários, mas não foi vetada porque existe o temor de veto da Rússia e da China e uma busca de apoio brasileiro para dar mais legitimidade ao texto.

Apenas uma resolução contra a Síria é suficiente para frear o regime de Bashar al Assad? Por que não sanções? Há um medo de a Rússia e a China usarem o poder de veto no CS?

Neste mesmo momento, as forças sírias estão abrindo fogo com armas pesadas e a partir de helicópteros contra civis desarmados que protestam pacificamente. Há uma urgência absoluta para reagir. Segundo a ONU, mais de 1.100 pessoas já foram assassinadas pelo Exército e pela polícia. É uma repressão feroz, brutal, da qual não podemos nos tornar cúmplices com nosso silêncio. Não podemos ficar calados diante desta tragédia que ameaça a frágil estabilidade da região : houve incidentes na fronteira com Israel, milhares de pessoas procuraram refúgio na Turquia, no Líbano, na Jordânia. Nós já tomamos medidas no quadro europeu, e outros países também. Mas a ação multilateral é sempre mais eficiente, por isso é crucial que o Conselho de Segurança reaja, já que os contatos bilaterais não foram suficientes para influenciar o governo da Síria.

Como o senhor vê a posição do Brasil, na qual o país publicamente condena a violência na Síria ao mesmo tempo que se recusa a apoiar a resolução exigindo exatamente isso no CS?

O Brasil é uma das maiores democracias do mundo, baseada em ideais humanistas e universalistas. Ouvimos as expressões de solidariedade das autoridades brasileiras ao povo sírio. O governo brasileiro repudiou o uso da força na Síria e apelou a um processo político que responda aos desejos dos sírios. O Senado apoiou esta mensagem. Esperamos sinceramente que a votação do Brasil reflita este apoio às aspirações democráticas dos povos árabes. O nosso projeto de resolução não tem outro propósito a não ser incentivar as autoridades sírias a ouvir os pedidos do seu povo e a abrir um diálogo político nacional, sem interferência do exterior. Para isso, a violência deve parar. Estas são as mensagens de nosso projeto de resolução. Eu não vejo como alguém poderia não concordar.

O Conselho de Segurança está dividido entre as forças ocidentais (EUA, França, Grã-Bretanha e Alemanha) de um lado e os BRICs do outro?

Na imensa maioria das resoluções aprovadas no Conselho de Segurança, essa suposta divisão é uma pura invenção. Neste caso, já temos maioria a favor do nosso projeto (nove dos 15 membros). Estamos procurando aumentá-la. A relutância do Brasil a se juntar a ela provêm do caso da Líbia. Não é porque temos divergências sobre esta questão que devemos ignorar os massacres que ocorrem na Síria. O que esta em jogo também é a credibilidade do Conselho de Segurança e de seus membros, cujo mandato é proteger a paz e segurança internacionais. Faz duas semanas que discutimos deste texto. Desde então, 400 pessoas, incluindo mulheres e crianças, foram mortas a tiros, às vezes torturadas. Milhares de refugiados fugiram da Síria. Digo claramente que a inação do Conselho de Segurança não é uma opção. Devemos mobilizar-nos todos juntos e contamos com o Brasil. O povo Sírio precisa do Conselho de Segurança, agora.

Nos últimos anos, o presidente Nicolas Sarkozy se aproximou de Assad. A França lamenta estes passos em direção à normalização das relações com a Síria?

Não é justo culpar um país por ter tentado a opção do diálogo, antes de ter um discurso de firmeza. Acreditamos, como o Brasil, que é preciso dar uma chance a relações pacíficas com todos os atores políticos da região. No entanto, chega um momento em que, confrontado com a evidência dos fatos, os princípios devem prevalecer. A única via possível para a estabilidade da Síria é uma reforma política realizada pelos próprios sírios, como o ressaltou o governo do Brasil no fim de abril, lembrando com muita razão que “a responsabilidade pelo tratamento dos impactos das crises no mundo árabe sobre a paz e segurança internacionais recai sobre o Conselho de Segurança”. O vento da mudança sopra através do mundo árabe. Nenhum de nós pode perder este encontro com a história e a liberdade dos povos.

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Gay Girl From Damascus era americano em Istambul

A menina lésbica de Damasco que encantou dezenas de milhares de leitores ao redor do mundo nos últimos meses com um blog chamado “A Gay Girl in Damascus” e que teria sido presa pelas forças de segurança de Bashar al Assad na semana passada era na realidade o escritor americano Tom MacMaster, baseado em Istambul.

O mistério foi desvendado ontem pelo próprio autor em um post no blog com o título de “Desculpa aos Leitores”. “Nunca esperei este nível de atenção. Embora a narrativa tenha sido ficcional, os fatos no blog são verdadeiros. Eu não acredito que tenha machucado qualquer pessoa. Sinto que criei uma voz importante para assuntos que acredito fortemente”, escreveu. Segundo o autor, seu objetivo foi “iluminar os acontecimentos para a audiência ocidental”. Sem se aprofundar, MacMaster diz que “esta experiência apenas confirma minhas impressões sobre a cobertura superficial do Oriente Médio”.

No texto, o blogueiro não explicou o que o motivou a tomar a decisão de dizer que a sua personagem, Amina Abdallah Araf al Omari, havia sido presa no dia 6. Em um post, um suposto primo dela relatava como teria ocorrido a prisão – imediatamente negada pelo regime sírio. Neste momento, começaram a emergir na imprensa internacional suspeitas de que ela talvez não existisse. Ontem, finalmente, MacMaster confirmou a farsa.

A história não é a primeira durantes os levantes sírios e nos faz questionar até que ponto as informações da oposição de grupos ativistas são verdadeiras. Há alguns dias, uma mulher se passando pela embaixadora da Síria em Paris renunciou ao cargo no ar durante um programa de uma rede francesa, atacando Assad. A verdadeira embaixadora, de uma família historicamente aliada do regime e fluente em francês (a farsante falava mal a língua), teve que publicamente dizer que se tratava de mentira. Os dois episódios poderão ser usados como propaganda por Assad.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br, com o comando do Gabriel Toueg e do João Coscelli, o Nuestra America, do Luiz Raatz, sobre América Latina, ” e as Cartas de Washington, da correspondente Denise Chrispim

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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