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De NY a Damasco – O Brasil virou o melhor amigo da Síria

gustavochacra

11 de agosto de 2011 | 07h49

no twitter @gugachacra

Apesar da repressão do regime sírio contra os opositores, o Brasil vê com seriedade “os esforços do presidente Bashar Assad para implementar reformas políticas”. A afirmação foi feita, segundo eu apurei, por representantes brasileiros no Conselho de Segurança da ONU na tarde de ontem em debate sobre a crise na Síria. Em Damasco, o regime celebrou o saldo do encontro com enviados por Brasil, Índia e África do Sul.

O governo sírio transformou um encontro de enviados do Ibas (grupo formado por Índia, Brasil e África do Sul) com Assad em um instrumento de propaganda em sua agência estatal de notícias. A reunião foi usada pela Síria para mostrar internamente que o regime não está isolado e enfatizar que os emergentes apostam nas propostas de abertura de Assad.

Uma manobra semelhante ocorreu depois da discussão sobre a crise na Síria na sede da ONU, em Nova York. O embaixador sírio fez questão de exibir aos repórteres o comunicado conjunto de brasileiros, indianos e sul-africanos para dizer que os países estão ao lado de Assad.

De acordo com o ministro das Relações Exteriores sírio, Walid al-Moallem, citado pela agência de notícias estatal Sana, “os membros da delegação do Ibas expressaram solidariedade à Síria e a seus líderes, dizendo que seus países apoiam a restauração da segurança e da estabilidade”. Os enviados também teriam defendido uma “instância firme contra qualquer interferência nos assuntos internos sírios”.

O órgão de informação sírio disse ainda que “Moallem demonstrou satisfação com as posições da Índia, Brasil, África do Sul, Líbano, Rússia e China diante da campanha (dos EUA e seus aliados europeus) no Conselho de Segurança contra a Síria”. Os países emergentes citados pelo chanceler sírio se posicionaram contra uma resolução condenando Damasco.

Há algumas semanas, a Sana também usou o Brasil para fazer propaganda do regime. A agência disse que chanceler Antonio Patriota teria elogiado as reformas prometidas por Assad. No entanto, ela ignorou a parte em que Patriota condenava a violência. Ontem não foi diferente.

No comunicado oficial do encontro, o Ibas deu uma versão um pouco diferente da apresentada pelo governo sírio. Os três países “reafirmaram o compromisso de Índia, Brasil e África do Sul com a soberania, a independência e a integridade territorial da Síria”. Os emergentes, novamente, lamentaram o derramamento de sangue, mas sem diferenciar as ações do governo das da oposição, condenando “a violência dos dois lados”.

Organizações de direitos humanos afirmam que o regime sírio é responsável pela morte de mais de 2 mil pessoas. A oposição, apesar de majoritariamente pacífica, teria alguns grupos armados envolvidos na morte de membros das forças de segurança e civis. O número de vítimas, porém, seria bem menor do que as causadas pela oposição.

Brasil, Índia e África do Sul também defenderam o diálogo no encontro com Assad. De acordo com o comunicado oficial, os sírios afirmaram que, até o fim do ano, haverá uma democracia multipartidária no país.

Segundo apurei, o uso do encontro do Ibas como propaganda por autoridades sírias estava sendo debatido no Conselho de Segurança da ONU. Alguns, como os EUA e integrantes da União Europeia, estavam decepcionados com a reunião por não ter servido para dar um recado mais duro a Assad.

Ao serem questionados por mim sobre o encontro dos representantes dos três países com Assad, os embaixadores europeus na ONU disseram que “ainda não tinham um relatório final do que aconteceu”, mesmo já tendo lido o comunicado.

Novos passos. No Conselho de Segurança, diferenças de visão voltaram a prevalecer sobre o consenso alcançado na semana passada, com a aprovação de uma declaração presidencial. Os embaixadores europeus defenderam novos passos para punir a Síria, incluindo uma resolução.

Em comunicado conjunto, representantes da França, Grã-Bretanha, Portugal e Alemanha disseram que, “para o processo de reformas de Assad ter credibilidade, a violência precisa parar imediatamente”.

A embaixadora dos EUA seguiu na mesma linha. Segundo ela, a “Síria estaria melhor sem Assad e ele perdeu a legitimidade”. Segundo o Washington Post, a Casa Branca pedirá a renúncia incondicional de Assad ainda esta semana.

Já a Rússia adotou uma nova linha dizendo que os opositores se negam a dialogar. Brasil, Índia e África do Sul também preferem esperar mais para ver resultados e apostam no diálogo.

Depois de ouvir os integrantes do Conselho de Segurança, o embaixador da Síria, Bashar Jaafari, usou o palanque ontem para atacar os diplomatas europeus. Ele comparou os levantes em Londres aos da Síria e afirmou que, a partir de agora, passará a se referir aos governos da Europa e dos EUA “como ‘regime’, porque esse termo é usado por eles para se referir à Síria”. Questionado por mim, o embaixador disse que o acesso de jornalistas a Hama é impedido “porque os repórteres poderiam ser sequestrados pelas gangues da oposição para culpar o governo posteriormente”.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

 

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