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De NY a Damasco – Obama e os europeus estão certos em pedir a saída de Assad?

gustavochacra

19 de agosto de 2011 | 12h07

no twitter @gugachacra

Os Estados Unidos, a França, a Grã Bretanha e a Alemanha pediram a saída de Bashar al Assad do poder. Eles argumentam que o líder sírio perdeu a legitimidade pela violência e por não contar com o apoio da população. Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul, além de dezenas de países ao redor do mundo, discordam.

Estas nações não negam que Assad esteja sendo violento. Porém consideram que não é papel de outros países decidirem os destinos e influenciarem na soberania de uma nação. Podem, se quiser, romper relações, impor sanções ou outras medidas diplomáticas. Mas não está claro, segundo diplomatas destes países, qual a autoridade de Obama sobre a Síria para pedir a queda do regime.

Todos dizem que o regime de Damasco é violento. Dá na mesma matar 700 ou 2.000. Certamente são centenas de pessoas e isso é inaceitável com qualquer um dos valores. Por outro lado, questiono as afirmações de que a população queira a queda dele. Dá para dizer, com segurança, que setores do povo sírio defendem a renúncia de Assad. Também, com a mesma segurança, podemos dizer que outros setores querem a manutenção de Assad.

Aparentemente, contra o líder do regime, estão grupos extremistas sunitas e também membros da classe média, especialmente em cidades como Hama e Homs, que são a terceira e a quarta do país. A maioria dos manifestantes seria, porém, de uma camada mais pobre.

Ao lado de Assad, por medo do que estar por vir ou por pura simpatia, estariam as minorias cristãs (o próprio patriarca ortodoxo declarou apoio ao regime) e alauítas. Também, pelos relatos que temos acesso, a classe média e a elite sunita de Damasco e Aleppo não querem a queda dele.

Desta forma, me pergunto como os europeus podem dizer que “diante da completa rejeição do regime pelo povo sírio, pedimos a ele (Assad) para que se afaste”. Eles realizaram alguma pesquisa de campo? Usam como base os protestos? Se sim, então Assad tem apoio, pois nos últimos meses ele reuniu centenas de milhares a seu favor e os protestos opositores nas duas grandes cidades foram mínimos.

Com a minha exposição acima, pergunto aos leitores se um país tem o direito de exigir a saída de um governante de outro, ainda que este seja um ditador. E, se Obama estiver correto, por que ele  não pede o fim da monarquia em Bahrain, que também mata a população e reprime a oposição? Como sabemos, o presidente americano recebeu líderes da monarquia bairenita, durante a repressão, na Casa Branca.

O portal do Estadão começou a cobrir os dez anos dos atentados. Eu entrarei em breve nesta cobertura também. Acompanhem no http://topicos.estadao.com.br/11-de-setembro

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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