As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

De NY a Damasco – Regime de Assad usa elogios do Brasil a ‘reformas’ como propaganda

gustavochacra

20 de julho de 2011 | 10h29

no twitter @gugachacra

A iniciativa brasileira de tentar negociar uma saída diplomática para a crise síria tem sido usada pelo regime de Damasco para mostrar que o governo desfruta de apoio internacional. Um dos títulos do site da agência de notícias estatal síria SANA  dizia ontem que o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, havia elogiado as reformas de Bashar al Assad durante encontro com o vice-chanceler sírio, Fayssal Mikdad, em Brasília.

“O ministro Patriota expressou como seu país aprecia as reformas do presidente Assad, indicando que o diálogo político é a melhor forma para resolver os problemas”, diz o texto da SANA, que trazia uma montagem unindo as bandeiras brasileira e síria. Não há citação de críticas do chanceler brasileiro à violência contra opositores – não sei ele as fez em Brasília, mas fez em Nova York.

Diplomatas estrangeiros indicavam ontem justamente que a iniciativa brasileira de tentar mediar a crise em Damasco serviria apena para o regime sírio fazer propaganda interna. O governo brasileiro é visto como muito distante dos acontecimentos, apesar de o país possuir uma das maiores comunidades da diáspora síria do mundo – a maior parte dos descendentes está na terceira e quarta geração, sem muita ligação política com a Síria.

Estados Unidos, França e Grã Bretanha também ficaram irritados no mês passado com a relutância do Brasil em apoiar uma resolução condenando a violência do regime de Assad, que já provocou a morte de ao menos 1.300 pessoas. O texto proposto por americanos e franceses não previa sanções ou intervenção militar, como no caso da Líbia. Mesmo assim, os brasileiros disseram que não votariam a favor.

Na verdade, a nação vista por diplomatas e analistas como a que tem mais condições para contribuir na resolução da crise é a Turquia, e não o Brasil. O governo de Ancara é um parceiro comercial fundamental de Assad e empresários turcos são os maiores investidores na economia síria. Ao mesmo tempo, o premiê Recep Tayyp Erdogan foi uma das vozes mais duras contra a repressão do regime, autorizou encontros de opositores em seu território e recebeu cerca de dez mil refugiados sírios.

Estas diferenças no cenário internacional demonstram que o consenso inicial sobre os levantes árabes, com o pedido quase unânime da comunidade internacional para a queda de Hosni Mubarak, no Egito, e de Ben Ali, na Tunísia, começou a desfazer na Líbia e se transformou em uma divisão na Síria de Bashar al Assad.

De um lado, os Estados Unidos e a França querem medidas duras contra o líder sírio. Para os dois países, Assad perdeu a legitimidade. Assim como algumas nações européias, adotam sanções econômicas unilaterais e defendem uma resolução condenando o regime de Damasco no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

China, e especialmente a Rússia, são contrárias a uma resolução contra Assad. Esta oposição levou Washington e Paris a não tentaram votar um texto na ONU temendo o uso do poder de veto por Moscou ou Pequim. Os argumentos de chineses e de russos envolvem as relações geopolíticas e econômicas das duas nações com Damasco.

“Além disso, os russos não estão satisfeitos com os acontecimentos na Líbia”, diz Ayham Kamel, da Eurasia, se referindo aos bombardeios da OTAN contra o regime de Muamar Kadafi. Rússia e China, assim como o Brasil, a Índia e a África do Sul, que são membros rotativos do Conselho de Segurança da ONU, acusam os EUA e as potências européias de terem ido além do autorizado pela resolução que estabelecia uma zona de exclusão aérea na Líbia. Eles temem que o mesmo ocorra na Síria, apesar do  texto proposto por americanos e franceses não falar em intervenção e sequer em sanções.

A Arábia Saudita, segundo analistas, optou por deixar as coisas acontecerem na Síria, evitando interferir diretamente nos acontecimentos. Por um lado, Riad vê com cautela uma queda de Assad, pois outras líderes árabes poderiam ser ameaçados. Ao mesmo tempo, o futuro regime, de caráter mais sunita, poderia se distanciar do Irã e se aproximar dos sauditas. O regime de Teerã, segundo Firas Abi Ali, da Exclusive Analysis, será o último a abandonar o barco. “Mas alguns grupos em Israel ainda preferem Assad”, diz. “Não é que Israel goste do líder sírio, mas ele era previsível”, acrescenta Reva Bhalla, da Stratfor.

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.