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De NY a Damasco – Vai demorar, mas regime sunita pró-Turquia sucederá Assad na Síria

gustavochacra

17 de julho de 2011 | 07h46

no twitter @gugachacra

O regime de Bashar al Assad não deve ser derrubado nos próximos meses. Mas a intensificação da violência e possíveis rupturas na sua base de apoio indicam que no longo prazo o líder sírio irá sucumbir às manifestações da oposição e um governo fraco, de caráter sunita e influenciado pela Turquia, deve sucedê-lo no poder. A avaliação foi feita para mim por analistas que cobrem a crise síria nas três maiores consultorias de risco  político do mundo.

“No fim, o Estado alauíta não irá sobreviver. Mas isso não ocorrerá antes dos próximos seis meses”, disse Firas Abi Ali, da Exclusive Analysis, de Londres. Para Ayham Kamel, da Eurasia, “a Síria como a conhecemos nos últimos 40 anos deixará de existir”. Reva Bhalla, da Stratfor, acrescenta que, “no longo prazo, acabará sendo estabelecido um Estado controlado pelos sunitas”.

No momento, apesar dos protestos, o regime ainda não sofre o risco de uma queda. “Duas coisas precisam ser ditas. Primeiro, Assad tem uma base forte. Em segundo lugar, a oposição existe. A disputa é por quem está no meio deles”, afirma Kamel, da Eurasia. “O Exército ainda está unido e Assad conta com o apoio dos alauítas e dos sunitas seculares”, diz Bhalla.

No poder desde o início dos anos 1970, o atual regime, primeiramente liderado por Hafez al Assad e, na última década, por seu filho Bashar, se sustenta em uma aliança entre a minoria alauíta, da qual eles fazem parte, e cristã com a elite sunita de Damasco e de Aleppo. Os protestos, por sua vez, reúnem a população rural e as camadas mais religiosas de cidades como Hama, sede da Irmandade Muçulmana síria e alvo de um massacre das forças de segurança há cerca de 30 anos. Os jovens das duas maiores metrópoles ainda não aderiram aos protestos, segundo os analistas.

A estratégia da oposição é manter os protestos para enfraquecer o regime aos poucos, provocando rupturas na atual aliança existente e eles devem alcançar este objetivo, segundo os especialistas. Mas cada uma das consultorias elabora um cenário distinto para o que deve acontecer nos próximos meses, apesar de todas concordarem que a violência continuará.

“Um governo no exílio deverá ser formado, com o auxílio da Turquia. Aos poucos, conseguirá o reconhecimento internacional e assumiria o poder no futuro”, diz Abi Ali, da Exclusive Analysis. Segundo ele, “será um Estado muito fraco, mas com importância geopolítica. Provavelmente, será controlado por sunitas similares aos tradicionalistas libaneses, da região de Trípoli”. Estes sunitas têm um perfil secular, mas arabista e não necessariamente alinhados com os EUA. O analista afirma que os cristãos não correm riscos. “Mas os alauítas que vivem nas cidades serão atacados”, afirma

Segundo Kamel, da Eurasia, “a oposição está se organizando e tudo dependerá dos próximos três ou seis meses. Se os protestos se intensificarem, ficará difícil para o regime, que tentará fazer concessões”. Bhalla, da Stratfor, ressalta que muitos grupos perderiam internamente e externamente com a queda de Assad, como a minoria alauíta, as forças de segurança, o Irã, o Hezbollah e facções palestinas.

A Turquia passou a ser chave no processo, de acordo com os analistas. Parceiro comercial da Síria, o premiê Recep Tayyp Erdogan decidiu se distanciar de Assad depois dos levantes. Também tem exercido uma “pressão positiva”, de acordo com Ayham Kamel, da Eurasia, para que o líder sírio realize reformas. Para Abi Ali, “provavelmente o regime sírio será próximo da Turquia e menos amigos do Irã”. Bhalla, por sua vez, diz que a Turquia já começou a agir e isso pode gerar um atrito com o Irã, que depende das suas relações com Assad para fortalecer o Hezbollah”.

Até agora, cerca de 1.300 pessoas morreram e outras 12 mil foram detidas na repressão do regime às manifestações dos opositores. Assad tem anunciado reformas e revogou a lei de emergência, mas a oposição afirma que são medidas cosméticas.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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