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De NY a Gaza – A Flotilha e a decadência de Israel na guerra das relações públicas

gustavochacra

29 de junho de 2011 | 10h06

no twitter @gugachacra

“Diferentemente de outras flotilhas, esta incluirá uma embarcação com a bandeira dos Estados Unidos, levando apenas passageiros americanos. Embora condenemos esta provocação irresponsável e reconheçamos o direito de Israel manter o bloqueio naval contra Gaza, controlada pelo Hamas, estamos preocupados com uma confrontação entre as forças israelenses e cidadãos americanos que poderiam afetar deteriorar as relações EUA-Israel, que é exatamente o que os organizadores da flotilha querem. Assim, pedimos ao governo israelense que ignore esta provocação e permita aos navios que sigam em direção a Gaza, desde que sejam inspecionados por pessoas com credibilidade para verificar se não há armas a bordo.”

A recomendação acima é da AIPAC, o poderoso lobby pró-Israel dos Estados Unidos. A organização raramente discorda de Israel. Desta vez, eles acham equivocada a postura do premiê Benjamin Netanyahu, de impedir a ida dos barcos. Concordo com a AIPAC. Deixe a flotilha passar que a provocação perde efeito. Talvez inclusive fortaleça a imagem internacional de Israel. Os israelenses não podem cair nesta armadilha de relações públicas montada por supostos defensores dos palestinos (vocês sabem que eu divido os envolvidos no conflito em três grupos – os anti-Israel, anti-Palestina e pró-Israel&Palestina. No caso, a Flotilha é anti-Israel).

Nos últimos anos, o governo israelense começou a perder a guerra de propaganda para os palestinos. Cerca de dez anos atrás, isso era impossível. A mudança ocorreu tanto por um avanço do lado árabe, como por uma piora na forma de os israelenses fazerem “hasbara”, ou relações públicas. Já escrevi sobre isso antes, quando listei os erros e acertos dos árabes (não apenas os palestinos) e os erros de Israel. Acrescentarei alguns e retirarei outros, que ficaram ultrapassados.

Primeiro, vamos aos erros de Israel. 1) Israel não desenvolveu uma mídia internacional capaz de confrontar a árabe. O diário “Haaretz”, o mais lido por estrangeiros que querem informações sobre Israel, é considerado de esquerda no espectro político israelense, sendo muitas vezes visto como “anti-Israel” por conservadores locais. 3) Israel não consegue mais exercer a influência que possuía anos atrás nos meios acadêmicos americanos e europeus, com redução no número de professores pró-Israel. 4) Por mais que tenha tentado, Israel fracassou em mostrar ao mundo o que acontecia em Sderot e outras cidades do sul do país, atingidas por foguetes do Hamas. 5) Israel passou a ser associado ao governo de George W. Bush, um dos mais odiados em todo o mundo (incluindo Europa, Ásia e América Latina) em toda a história. 6) Ficou inteiramente dependente dos americanos no campo diplomático, ignorando os outros países. Deixou de ter uma estratégia. 7) Os israelenses se focam muito na atração de judeus para conhecer o país, mas são fracos ao convencer pessoas de outras religiões a viver e estudar em Israel 8 – Usam pessoas com reputação ruim na imprensa para os defender, como a Fox News nos EUA e apresentadores como Glenn Beck

Agora, vamos aos acertos dos árabes. 1) Desenvolveram órgãos de imprensa como a rede de TV Al Jazeera, que supera em muitos casos a cobertura de canais europeus e americanos. Seus jornalistas são das mais variadas origens. Mostra lados do conflito que jamais uma rede de TV ocidental exibiu. Seus repórteres têm PhDs nas melhores universidades americanas e, pasmem, com o perfil “Wasp”  (brancos, protestantes, americanos, saxões). Além de outros craques que fizeram sucesso na CNN, como o iemenita Riz Khan. 2) Os árabes colocam porta-vozes com inglês impecável para dar entrevistas. 3) Os árabes e muçulmanos nos EUA têm assumido elevados postos na academia e no jornalismo 4) Os árabes se desenvolveram na diplomacia. Sabem agir. Vejam a iniciativa para o reconhecimento do Estado palestino no Brasil e outros países da América do Sul 5) Jovens americanos e europeus viajam para os países árabes para estudar a língua. Isso já acontece há uns 15, 20 anos e se intensificou. Eles retornam a seus países com uma imagem diferente dos árabes. Descobrem que não são fanáticos. Na verdade, são bem parecidos com eles. Descobrem que em Beirute, na Universidade Americana, o clima é mais livre do que em muitos campi dos EUA. Alguns poucos que estiveram no Líbano e em Israel, sabem que Beirute é uma cidade mais cosmopolita e liberal do que Jerusalém e talvez tanto quanto Tel Aviv. Sem falar que há Gerogetown, NYU, Cornell, Columbia e outras universidades com filiais no golfo e na Jordânia. 6) Os árabes sabem usar melhor as novas tecnologias como o Youtube, o Facebook, o Twitter 7) Para completar, com a Primavera Árabe, a imagem do povo da região melhorou. Os americanos vêem sírios e líbios arriscando a vida pela democracia. Centenas de milhares nas ruas do Cairo, liderados por um executivo do Google. Os árabes aos poucos deixam de ser vistos como terroristas

No episódio da Flotilha, Israel pode, se seguir o conselho da AIPAC, que é a sua maior protetora no mundo, a reduzir esta deterioração na image. Basta deixar que os barcos passem. Depois de duas semanas, ninguém mais se lembrará. Já se houver confrontação, todos sabem o que vai acontecer

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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