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De NY a Jerusalém – A diferença entre ser pró-Israel e anti-Palestina

gustavochacra

01 de junho de 2011 | 10h42

no twitter @gugachacra

Alguns supostos defensores de Israel têm o hábito de dizer que o país é mais desenvolvido do que seus vizinhos, produziu avanços tecnológicos para toda a humanidade, sendo a única democracia da região. Em seguida, vem com a chatice de querer dizer que os vizinhos islâmicos – eles adoram usar esta expressão – são inferiores, atrasados, vivem do petróleo e mais uma série de argumentos que visam simplesmente dizer que Israel é superior aos palestinos.

Dizem, por exemplo, que “Israel não possui os recursos de seus vizinhos”, como o petróleo. Tirando a medíocre produção síria, Líbano, Jordânia e Egito não possuem recursos energéticos. Chamam os vizinhos de islâmicos. Mas o presidente do Líbano por lei é cristão. Na Síria, o regime de Bashar al Assad tem viés secular e seu comandante das Forças Armadas também segue o cristianismo.  Afirmam que Israel é pequeno, mas se esquecem do tamanho bem inferior do Líbano (metade da área israelense), sendo ocupado até o ano 2000 pelos israelenses e até 2005, pelos sírios.

Estes argumentos não adiantam nada. Ainda que Israel seja uma ilha de prosperidade na região, esta nação viverá em paz apenas quando se acertar com os seus vizinhos. Israel fica no Oriente Médio, não na Escandinávia. Nas suas fronteiras estão o Líbano, a Síria, a Jordânia e o Egito, além de Gaza e Cisjordânia.  Ficar se achando superior, além de mostrar ignorância e preconceito, não leva a lugar algum. Acho ótimo Israel produzir avanços tecnológicos, mas o que isso tem a ver com a resolução do destino dos milhões de palestinos que vivem na Cisjordânia sem cidadania e sem Estado? Eles vão continuar cada vez mais conquistando apoio internacional e Israel ficará isolado.

Nos próximos meses, especialmente ao redor de setembro e depois, os palestinos devem iniciar mega-manifestações pacíficas inspiradas pelos egípcios da praça Tahrir. Serão dezenas de milhares de pessoas todos os dias pedindo apenas ter o direito a ter um Estado em áreas como o checkpoint de Qalandia. O  mundo todo assistirá na TV, assim como aconteceu no Egito. O que os soldados de Israel poderão fazer?

Quem defende Israel de verdade, como muitos da comunidade judaica começaram a fazer nos Estados Unidos e no Brasil, já entendeu que o melhor para o verdadeiro sucesso israelense seria a criação de um Estado palestino. Os que ficam o tempo todo querendo colocar Israel como superior, quando houver a paz, poderão ficar surpresos ao pegarem o carro e viajarem de Tel Aviv a Beirute. Verão quanto tempo perderam. Ou, claro, de Jerusalém a Damasco. Descobrirão que Israel não está na Europa, mas em uma região tão interessante quanto.

A paz não depende apenas dos israelenses. O Hamas ainda não reconhece Israel e duvido que no curto prazo o Hezbollah reconhecerá. Mas para que insistir o tempo todo que os israelenses são superiores aos “atrasados” árabes? Não seria esta uma forma de preconceito? E, mais importante, uma completa inutilidade diante dos acontecimentos na região? O governo israelense, atualmente, é criticado até no New York Times e na New Yorker. Jornalistas como Thomas Friedman e Jeffrey Goldberg condenaram o discurso de Netanyahu. Os parlamentares podem ter aplaudido no Congresso, mas a imprensa americana deixa claro como a Casa Branca, o Pentágono e o Departamento de Estado estão irritados com o atual governo israelense e sonham todos os dias com Tzipi Livni no poder. Basta circular pelo Conselho de Segurança da ONU para ver a imagem israelense atualmente. Não adianta fechar os olhos. Onde estes supostos defensores de Israel querem chegar? No isolamento?

Na verdade, estas pessoas não defendem Israel. São anti-palestinos. Assim como os que apenas defendem os palestinos, sem ver o lado israelense, são anti-Israel, não pró palestinos. É impossível ser pró-Israel sem ser pró-Palestina. Não haverá paz enquanto os dois lados não estiverem em paz.

No fim, a solução será algo próximo de um Estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Os principais blocos de assentamento, próximos à fronteira de 1967, ficariam com Israel. Em troca, os palestinos receberiam outras terras da mesma qualidade que aproximassem os dois territórios. Jerusalém seria uma municipalidade unificada, mas capital dos dois países. Na prática, apenas a sede da Presidência palestina ficaria na parte oriental da cidade, com administração permanecendo em Ramallah, a poucos minutos de distância (sem levar em conta os postos de controle). Vale lembrar que Israel também mantém algumas instituições em Tel Aviv. Os refugiados poderiam retornar para o novo Estado palestino. Israel reconheceria que muitos deles foram expulsos no processo de independência. Países árabes, como o Egito, admitiriam que judeus também foram obrigados a deixar suas nações.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br, com o comando do Gabriel Toueg e do João Coscelli, o Nuestra America, do Luiz Raatz, sobre América Latina, ” e as Cartas de Washington, da correspondente Denise Chrispim

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios



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