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De NY a Jerusalém – A ‘israelização’ das discussões e a diferença entre flotilha de Gaza e a de Hama

gustavochacra

05 de agosto de 2011 | 10h54

no twitter @gugachacra

Os debates envolvendo conflitos ao redor do mundo tendem a ser “israelizados”. Sei que a palavra não existe, mas gostaria de explicar o termo. Qualquer assunto abordado sobre política internacional implica imediatamente em uma comparação de algum comentarista com o conflito entre israelenses e palestinos.

Por que não fazem uma flotilha igual à de Gaza para Hama? Por que não condenaram Israel na ONU durante a Guerra do Líbano?  Por que não se manifestam contra os massacres do regime de Damasco? Por que os jornais dão mais espaço para quando um palestino morre do que para quando um sírio morre? Por que os jornais dão mais espaço para quando um israelense morre do que quando sírio morre (isso mesmo, as reclamações vêm pelos dois lados)?

São perguntas sem sentido e que demonstram desconhecimento de geografia e de política internacional. Afinal, a cidade síria, para ficar no exemplo mais básico, fica no interior, inviabilizando uma ajuda humanitária. Benghasi (Líbia), que fica na costa, por sua vez, recebeu muito mais contribuições internacionais, incluindo armas, do que Gaza.

Israel não é condenado na ONU porque os EUA usam o poder de veto. A Síria também se salva de ser alvo de sanções porque é protegida por Moscou – a condenação desta semana ocorreu através de uma declaração presidencial, não resolução. Há manifestações contra o regime de Damasco (e também a favor) até mesmo em São Paulo. Realmente desperta menos paixões do que o conflito entre israelenses e palestinos, mas tem um impacto maior do que os conflitos na África e mesmo no Yemen ou Bahrein.

Sobre a cobertura da imprensa, lembro que pelo terceiro dia seguido uma reportagem minha envolvendo a Síria tem sido capa do caderno de Inter do Estadão. Foi assim diversas vezes ao longo dos últimos meses. Israel e Palestina também aparecem, é verdade. Quando há notícia, o jornal publica. Aqui no blog, pelo quinto dia seguido, fala sobre os levantes sírios.

Para completar, nem tudo é igual no mundo. Israelenses e palestinos possuem disputas há décadas que hoje se resumem basicamente ao status final de Jerusalém, os assentamentos na Cisjordânia e os refugiados. Não dá para comparar com os levantes árabes. No caso da Síria e da Líbia, existem opositores que querem o fim de regimes ditatoriais. Se almejam democracia ou não, é outra discussão. Mas são sírios contra sírios, líbios contra líbios, bairenitas contra bairenitas e iemenitas contra iemenitas para definir o destino de seus países.

Obs. Eu usei como comparação o número de mortes de palestinos na Guerra de Gaza e de libaneses na Guerra do Líbano para comparar com as mortes sírias. Neste caso, era para dar contexto da dimensão. Isto é, a repressão de Assad já matou tanto quanto, ou mais, do que conflitos bélicos.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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