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De NY a Jerusalém – Este é o último aniversário de Israel sem Estado Palestino?

gustavochacra

10 de maio de 2011 | 10h21

no twitter @gugachacra

Israel faz 63 anos no dia em que os palestinos marcam o Nakba, que seria a tragédia deste povo. Poderia voltar no tempo e discutir o que foi certo ou errado em 1948, mas não levará a nada. O momento é de pensar no futuro e como será possível a criação de um Estado palestino que viva em paz e segurança ao lado do israelense.

Apesar do pessimismo dos dois lados, acho que há espaço para otimismo. A aliança do Fatah com o Hamas pode ser vista como uma aceitação do terrorismo por parte da Autoridade Palestina, afinal a organização radical islâmica é responsável por dezenas de atentados e tampouco reconhece oficialmente a existência de Israel. Na verdade, em sua carta de fundação, pede a destruição do Estado isralense.

Ao mesmo tempo, podemos enxergar a aliança como uma moderação do Hamas. E este parece ser o caso. Os líderes do grupo disseram claramente aceitar um Estado palestino apenas na Cisjordânia, Faixa de Gaza e Jerusalém – eles não usaram a palavra oriental –, além do direito de retorno dos refugiados. Basicamente, aceitaram Israel do outro lado da fronteira, mas preferem guardar esta aceitação como moeda de troca.

Com o acordo, a administração palestina não deverá ficar mais separada. A estratégia de buscar reconhecimento internacional se fortalecerá. Em setembro, na Assembléia Geral da ONU, aqui em Nova York, os palestinos tentarão criar seu Estado. Não há, no caso, a possibilidade de os Estados Unidos vetarem, como seria o caso no Conselho de Segurança. O Brasil e uma série de países já reconheceram a Palestina. Até o Reino Unido e a França indicaram estar dispostos a seguir pela mesma via.

Israel, por sua vez, também avançou na sua busca pela paz. Os pessimistas dirão que a construção de assentamentos continuou. Na verdade, a construção de novas unidades habitacionais nas colônias já existentes prosseguiram. Israel quer garantir estas áreas em um acordo de paz e também pode usar como uma moeda de troca em uma negociação. Por exemplo, dizendo que concorda em desmantelar assentamentos distantes da fronteira se o Hamas publicamente afirmar que renuncia ao terrorismo e reconhece o Estado israelense.

No fim deste mês, o premiê Benjamin Netanyahu irá a Washington discursar no Congresso, a convite dos próprios parlamentares americanos, para delinear o seu plano de paz com os palestinos. Não deve ser muito diferente daquele formulado em uma universidade israelense dois anos atrás. O Estado palestino precisaria ser desmilitarizado, não haveria direito ao retorno dos refugiados, Jerusalém permaneceria indivisível e o vale do rio Jordão seria controlado pelas forças israelenses.

Está claro que, aparentemente, o plano israelense não seria aceito pelos palestinos e vice-versa. Seria necessário encontrar um denominador comum e todos sabem qual é – um Estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Os principais blocos de assentamento, próximos à fronteira de 1967, ficariam com Israel. Em troca, os palestinos receberiam outras terras da mesma qualidade que aproximassem os dois territórios. Jerusalém seria uma municipalidade unificada, mas capital dos dois países. Na prática, apenas a sede da Presidência palestina ficaria na parte oriental da cidade, com administração permanecendo em Ramallah, a poucos minutos de distância (sem levar em conta os postos de controle). Vale lembrar que Israel também mantém algumas instituições em Tel Aviv. Os refugiados poderiam retornar para o novo Estado palestino. Israel reconheceria que muitos deles foram expulsos no processo de independência. Países árabes, como o Egito, admitiriam que judeus também foram obrigados a deixar suas nações.

Barack Obama, com capital em política externa depois da ação para matar Bin Laden, poderia aproveitar e dizer ser este o plano que defende. Ninguém o criticará por ser pró-Israel ou pró-Palestina. Mesmo porque dá para ser as duas coisas simultaneamente. Basta defender a existência dos dois Estados vivendo lado a lado. E, quem sabe, este será o último aniversário de Israel comemorado junto com o Nakba. Afinal, no ano que vem, quem sabe, já existirá o Estado Palestino.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, da Claudia Trevisan, em Pequim, e o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br e do jornal O Estado de S.Paulo”

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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