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De NY a Jerusalém – O Nakba e o risco de uma Terceira Intifada

gustavochacra

14 de maio de 2011 | 12h00

no twitter @gugachacra

Pretendia falar de Síria hoje, mas os choques em Jerusalém e a demissão do enviado especial dos EUA ao Oriente Médio, George Mitchell, me levam a escrever hoje sobre o conflito entre israelenses e palestinos. No quadro macro, conforme escrevi na semana passada, sou um otimista e ainda acho que ocorreram evoluções dos dois lados em direção à solução de dois Estados.

O problema é que, apesar de ambos e também o governo americano estarem dispostos a resolver a disputa, a relação entre eles não para de se deteriorar.  Neste domingo, ocorrerá a celebração do Nakba, que é uma data para marcar o que os palestinos chamam de tragédia. Foi o dia da independência de Israel e do início de um processo no qual centenas de milhares de palestinos foram expulsos ou deixaram por vontade própria as suas terras em meio à primeira guerra árabe-israelense.

Se a violência continuar, como neste sábado em Jerusalém Oriental, pode ser o início de uma Terceira Intifada. Caso prevaleça a paz, seria mais um foco da primavera árabe, apesar de um contexto completamente diferente. No Egito e na Tunísia, os habitantes se levantaram contra um regime opressor que reprimia a sua própria população. Nos territórios palestinos, os atos seriam contra a ocupação israelense através dos assentamentos. São dois lados claramente distintos. Todos sabem onde isso pode parar.

Paralelamente, Israel busca apoio nos Estados Unidos. O premiê Benjamin Netanyahu virá aos EUA falar no Congresso e mostrar seu plano de paz. Os palestinos, por sua vez, tentam conseguir reconhecimento de seu Estado de forma unilateral. Já conseguiram do Brasil e outras nações. Inglaterra e França não descartam fazer parte deste grupo. Vamos ver se a disputa acabará em uma mesa de negociações ou em um retorno para os anos violentos da primeira metade da década passada. Atos unilaterais servem como barganha, mas os palestinos não terão um Estado sem um acordo com Israel. É preciso dialogar.

O papel dos Estados Unidos será fundamental. Barack Obama ganhou crédito na área de segurança depois da ação contra Bin Laden. Nesta semana, o presidente fará um discurso para o mundo árabe em que deve tocar na questão israelense-palestina, apesar de certamente não se aprofundar no assunto.

O tabuleiro geopolítico na região também se alterou. A Síria, principal patrocinadora do Hamas, vive uma crise interna e o regime de Bashar al Assad deve estar mais preocupado em reprimir a oposição. O Hezbollah, além das questões domésticas libanesas, também pensa mais em seus interesses no que no dos palestinos – o grupo nunca defendeu os refugiados palestinos que são tratados como cidadãos de segunda classe no Líbano. O Irã enfrenta uma divisão entre o aiatolá Khamanei e o presidente Mahmoud Ahmadinejad – para a turma que gosta de uma conspiração, será que a disputa persa não foi uma montagem para evitar levantes como no mundo árabe?

Ao mesmo tempo em que Irã, Síria e Hezbollah estão com outros problemas, dois novos atores ganharam força e não se sabe se eles serão positivos ou não para o processo – a Turquia e o Egito. Os dois possuem relações com Israel, mas deram uma guinada recentemente. Os turcos, de mediadores sérios, viram sua imagem se deteriorar entre os israelenses ao apoiar a flotilha de Gaza. O Egito pode se transformar na nova casa dos líderes do Hamas, que não são mais bem vindos na Síria. Caso estejam a favor de uma solução, estas duas nações serão fundamentais. Mas, se preferirem sabotar, veremos certamente uma Terceira Intifada.

Por último, acho que os Estados Unidos deveriam estabelecer o seguinte parâmetro para os dois lados retomarem as negociações. O Hamas precisaria reconhecer o Estado de Israel dentro das fronteiras pré-1967 e renunciar à violência, entregando as suas armas para a Autoridade Palestina. Se não concordar, é porque não quer paz. Israel, por sua vez, deveria congelar a construção de novas unidades habitacionais em seus assentamentos até que as fronteiras entre os dois países sejam definidas. Se não aceitar, é porque não quer paz.

No fim, a solução será algo próximo de um Estado palestino na Cisjordânia e na Faixa de Gaza. Os principais blocos de assentamento, próximos à fronteira de 1967, ficariam com Israel. Em troca, os palestinos receberiam outras terras da mesma qualidade que aproximassem os dois territórios. Jerusalém seria uma municipalidade unificada, mas capital dos dois países. Na prática, apenas a sede da Presidência palestina ficaria na parte oriental da cidade, com administração permanecendo em Ramallah, a poucos minutos de distância (sem levar em conta os postos de controle). Vale lembrar que Israel também mantém algumas instituições em Tel Aviv. Os refugiados poderiam retornar para o novo Estado palestino. Israel reconheceria que muitos deles foram expulsos no processo de independência. Países árabes, como o Egito, admitiriam que judeus também foram obrigados a deixar suas nações.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, da Claudia Trevisan, em Pequim, e o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br e do jornal O Estado de S.Paulo”

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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