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De NY a Moscou – Como na Guerra Fria, o maior inimigo da Rússia na Primavera Árabe é a OTAN

gustavochacra

21 de agosto de 2011 | 10h43

no twitter @gugachacra

Vinte anos atrás, acabava a União Soviética. Mas, apesar do fim do comunismo e a emergência de uma frágil democracia, a Rússia herdou parte do pensamento geopolítico dos tempos da Guerra Fria. Conforme disse em entrevista ao Wall Street Journal Richard Pipes, professor de Harvard e um dos maiores especialistas em história soviética do mundo, o maior inimigo de Moscou ainda é a OTAN.

Por este motivo, a ação da aliança militar ocidental contra as forças de Kadafi irritou profundamente os russos. No caso da Síria, um aliado importante nos anos da Guerra Fria, o Kremlin será ainda mais relutante em aprovar medidas punitivas contra o regime de Bashar al Assad. Não podemos esquecer que o porto de Latakia é usado como entreposto militar russo no Mediterrâneo.

No dia 26 de fevereiro, quando Muamar Kadafi iniciou a repressão contra os levantes opositores, o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou por unanimidade sanções contra o regime líbio e pediu que o Tribunal Penal Internacional investigasse os crimes do líder da Líbia e de outras autoridades.

Menos de um mês depois, no dia 17 de março, o Conselho de Segurança da ONU aprovou mais uma resolução. Desta vez, entre outras medidas, estabeleceu uma zona de exclusão aérea. O objetivo era impedir que o regime de Kadafi utilizasse aviões para bombardear alvos da oposição em cidades como Benghasi.

Rússia, China, Índia, Brasil e Alemanha se abstiveram. Mas Moscou e Pequim optaram por não usar o seu poder de veto. Nos dias seguintes, começaria a ofensiva que provocou insatisfação não apenas dos russos, mas também de brasileiros e outros governos que integram o órgão.

Conforme ficou claro ontem, a OTAN foi além dos poderes concedidos pela resolução 1973. Navios da aliança bombardeavam Trípoli, ainda que Kadafi não estivesse utilizando aviões. E esta não foi a primeira vez. Basicamente, as nações europeias e os americanos foram além do que era permitido pelas Nações Unidas.

Agora, a Rússia, China, Brasil, Índia e mesmo a África do Sul, que votou a favor da resolução 1973, estão relutantes em seguir um caminho similar em relação à Síria. Literalmente, não confiam nos Estados Unidos e nos seus aliados devido aos acontecimentos observados na Líbia.

Diante deste cenário, os americanos e a União Européia lutam contra a Rússia para conseguir o apoio brasileiro e das outras duas nações do Ibas (Índia e África do Sul) para uma resolução contra o regime de Bashar al Assad no Conselho de Segurança da ONU. No texto, segundo apurei, pode ser incluída uma menção para um pedido de julgamento do líder sírio e de outras autoridades de Damasco pelo Tribunal Penal Internacional.

A proposta de resolução deve circular no início da próxima semana, depois de reunião da Comissão de Direitos Humanos em Genebra. Durante a tarde de ontem, aconteceu uma reunião na missão britânica junto às Nações Unidas, em Nova York, da qual participou a embaixadora do Brasil, Regina Dunlop. No encontro, os países europeus discutiram alguns pontos que poderiam ser incluídos no texto, como embargo de armas e congelamento de ativos de autoridades sírias no exterior. O Itamaraty, por enquanto, não tem uma posição.

Para os EUA, Grã-Bretanha, França e Alemanha, o apoio do Brasil a uma resolução seria fundamental não apenas por ser uma nação democrática, mas também porque demonstraria a Moscou que os russos estariam isolados em relação a Bashar al Assad. Há uma confiança maior de que a China não usaria o poder de veto neste momento, apesar de uma possibilidade de Pequim optar pela abstenção.

O portal do Estadão começou a cobrir os dez anos dos atentados. Eu entrarei em breve nesta cobertura também. Acompanhem no http://topicos.estadao.com.br/11-de-setembro. Siga o @inter_estadão, o Twitter da editoria de Internacional do estadão.com.br. Conheça também os blogs da equipe de Internacional do portal – correspondentes, colunistas e repórteres.

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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