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De NY a Paris – Com burqa ou sem, muçulmanos, como Zidane, já são franceses

gustavochacra

12 de abril de 2011 | 11h06

no twitter @gugachacra

Como todos sabemos, desde ontem, as mulheres francesas não podem cobrir o rosto com a burqa ou o niqab. Estas vestimentas são atribuídas ao islamismo porque as pessoas que as usam são muçulmanas, apesar de esta religião não determinar que as faces devam ser escondidas. Elas têm, na verdade, origem tribal em lugares como Afeganistão e Arábia Saudita, mas nunca em países como Líbano, Argélia e Síria.

Os defensores da lei usam quatro argumentos principais para justificar a legislação, que é popular na França. Primeiro, por questões de segurança. Em segundo lugar, porque as mulheres seriam forçadas a se vestir desta forma. Terceiro, porque a França é uma nação secular e símbolos religiosos deveriam ficar dentro dos templos. Por último, os muçulmanos deveriam se adaptar à sociedade francesa.

No primeiro caso, não há como negar que realmente facilita a segurança. Um bandido poderia usar a burqa para conseguir fugir da cena do crime sem ser identificado. Sabe-se lá quantas vezes isso ocorreu e ele pode fazer a mesma coisa com a máscara do Batman – apesar de esta também ser proibida.

É realmente um absurdo mulheres serem forçadas a usar a burqa ou o niqab. Mas também é obrigá-las a  não usar. O New York Times entrevistou hoje mulheres que usam estas vestimentas e elas lamentaram a decisão do governo francês. Uma delas disse que talvez compre uma lambreta para ir ao trabalho de capacete, já que não poderia fazer o mesmo de metrô.

O terceiro ponto até poderia ser defendido, mas judeus ortodoxos, hindus e budistas não sofrem restrições às suas vestimentas. Lembro que algumas vertentes conservadoras destas religiões também recomendam que homens e mulheres se vistam de formas que possam ser consideradas ultrapassadas ou opressivas por seculares.

Por último, dizem que os muçulmanos deveriam se adaptar à sociedade francesa. Tudo bem, começando pelo ídolo esportivo Zidane, que é muçulmano. Além dele, claro, quase toda a seleção de futebol francesa. Eles já fazem parte e há gerações da Franças. Alguns são netos e outros bisnetos de argelinos e marroquinos. Seria como dizer que os descendentes de italianos ou de japoneses precisassem se adaptar à sociedade brasileira.

Lembro ainda que a maior parte dos muçulmanos que estão na França foi para o país quando a Argélia era dominada pelos franceses. E ficou independente apenas depois de uma sangrenta guerra. Eles foram incentivados a se mudar para o território francês, que necessitava de mão de obra.

E, para completar, os descendentes do Magreb (Argélia e Marrocos), que são o grosso dos muçulmanos franceses, não usam burqa nem niqab. As 3 mil mulheres que, segundo dizem, usam estas vestimentas, são francesas convertidas ou recentes imigrantes de outras partes do mundo, como o Afeganistão.

Minha opinião sobre a lei? Sou a favor das liberdades individuais. Cada pessoa se veste como quiser, incluindo a burqa. E as autoridades de segurança, e apenas elas, devem ter o direito de querer identificar pelo rosto quem quer que seja.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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