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De NY a Rafah – Gaza (passado) e Cisjordânia (futuro) têm objetivos diferentes na causa palestina

gustavochacra

28 de maio de 2011 | 13h06

no twitter @gugachacra

A Faixa de Gaza é um território geográfico criado em conseqüência dos acontecimentos políticos dos últimos 63 anos. Era uma área que integrava a Palestina Histórica sem um caráter independente do restante do Império Otomano. Com apenas duas cidades, Gaza e Rafah, este território não tem as mesmas características da Cisjordânia. Não havia uma elite local ou lugares históricos como em Hebron, Nablus e Belém. Até 1948, sua importânia era mínima. A mudança veio em 1948, com a criação de Israel e a primeira guerra árabe-israelense.

Centenas de milhares de palestinos acabaram refugiados na Faixa de Gaza, que ficou sob controle do Egito. Notem, neste ponto, as diferenças em relação a Cisjordânia se acentuaram – os egípcios não concederam cidadania para os habitantes locais e tampouco quiseram anexar o território. A Jordânia considerava a Cisjordânia parte de seu país, dando nacionalidade aos moradores do lado ocidental do rio Jordão.

Em Gaza, a maioria da população era composta por refugiados. Eles mantiveram sempre, como os refugiados do Líbano, aceso o sonho de um dia retornar para as cidades de suas origens. O xeque Ahmad Yassin, líder espiritual do Hamas, nasceu em Ashkelon (na época, Askalon), hoje uma cidade israelense. Na Cisjordânia, os nativos de Nablus, Hebron, Jenin, Jericó, Ramallah e Jerusalém Oriental eram majoritários, apesar dos campos de refugiados.

Portanto, Gaza era habitada por refugiados não-cidadãos sob controle do Egito em um território pobre. A Cisjordânia, por sua vez, sempre foi habitada em sua maioria por nativos de suas cidades, em uma área relativamente próspera, sob controle da Jordânia e até 1967, com cidadania.

Com a Guerra dos Seis Dias, há 44 anos, os dois territórios passaram para o controle israelense. Os nascidos na Cisjordânia deixaram de ter a cidadania da Jordânia e não receberam a de Israel, a não ser pelos de Jerusalém Oriental, que receberam este direito. Em Gaza, eles continuaram da mesma forma, mudando apenas o país que exercia soberania.

Israel, nestas décadas, iniciou o processo de construção de assentamentos, com o foco na Cisjordânia. Há hoje 300 mil colonos, sem contar os moradores judeus de Jerusalém Oriental. Em Gaza, foram no máximo 7 mil, até Ariel Sharon os retirar em meados de 2005.

Ao longo de todos estes anos, a Cisjordânia passou a lutar pelo fim da ocupação israelense, e não pelo retorno dos refugiados para o que hoje é Israel. É uma luta de quem aceita a existência de Israel. Naturalmente, partidos mais moderados como o Fatah se fortaleceram. Em Gaza, o ideal sempre foi de retorno, não de desocupação. O Hamas, desta forma, mantém a a esperança de um dia poder ter de volta Ashkelon, apesar do realismo recente,

A resolução do conflito com a Cisjordânia sempre será mais simples. Em Gaza, mais complicada.Mesmo com o fim dos assentamentos, os palestinos de Gaza e continuam lutando porque a meta sempre esteve além de encerrar a presença de Israel. No início, não houve bloqueio. Este apenas começou quando o Hamas, vencedor de eleições livres, foi impedido de assumir o poder e derrubou o Fatah do comando de Gaza. Com dezenas de atentados terroristas no currículo, o Hamas sempre foi visto como inimigo pelos israelenses.

Agora, o Egito reabriu a fronteira. Não deve haver muita alteração no armamento desta organização palestina, que já contrabandeava armas através de túneis. Na verdade, pode até ser positivo para Israel, já que os egípcios passam a ter o ônus do controle do que entra e sai. Além disso, iniciativas como a Flotilha de Gaza, cuja segunda edição está marcada para as próximas semanas, perdem força. Afinal, basta enviar os alimentos e medicamentos através do Egito. A pressão sobre os israelenses diminuirá.

A dinâmica do conflito, por sua vez, continua a mesma. A Cisjordânia quer contruir um país em que seus habitantes possam ser cidadãos, enquanto Gaza quer tentar voltar para o pré-1948. Um território palestino pensa no futuro. O outro, no passado. Pelos últimos acontecimentos, o ideal de “Nablus” aos poucos supera o de “Rafah”. E isso será melhor para quem deseja a paz.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br, com o comando do Gabriel Toueg e do João Coscelli, o Nuestra America, do Luiz Raatz, sobre América Latina, ” e as Cartas de Washington, da correspondente Denise Chrispim

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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