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De NY a SP – Judeus e Árabes no Brasil e a Corrida da Amizade

gustavochacra

30 de junho de 2011 | 09h46

no twitter @gugachacra

Os judeus chegaram antes. Estavam no Recife no começo da história moderna brasileira, depois do descobrimento dos portugueses. Os árabes, sírios e libaneses, em sua maioria, vieram a partir do século 19, nos anos que se seguiram à visita de Dom Pedro II a Beirute, Damasco e outras cidades do Oriente Médio. Os dois grupos continuaram imigrando para São Paulo ao longo do século 20, com a chegada de judeus sobreviventes do Holocausto, outros antes disso também do Leste Europeu e a comunidade Sefaradi de cidades como Aleppo, Cairo e Alexandria, com sobrenomes como Safra, Duek e Lagnado.  Entre os árabes, o processo também se intensificou mais uma vez ao longo da guerra civil libanesa (1975-90), com a vinda de muçulmanos e cristãos que fugiam da violência.

Ao desembarcarem no Brasil, tanto judeus como libaneses rapidamente se envolveram no comércio e na indústria. Era a geração dos mascates. Os árabes da 25 de Março e os judeus do Bom Retiro. Por portarem inicialmente o passaporte turco-otomano, libaneses e sírios eram equivocadamente chamados de “turcos” e aos poucos esta denominação virou apelido. Entre eles, era mais comum o uso de “brimos”, com o “B” no lugar do “P”, inexistente na língua árabe.

A alta sociedade paulistana era formada pelos chamados “quatrocentões”, que seriam os equivalentes dos WASPs nos Estados Unidos. Eram emergentes, da época do café do século 19, mas agiam como se tivessem 400 anos de história e tradição nesta cidade, sendo, na visão de alguns deles, os nobres britânicos ou franceses. Esta sociedade exerceu preconceito sobre os recém chegados árabes e judeus. Uma ironia, levando em conta que muitos judeus sefaradis de Aleppo e cristãos do Líbano eram poliglotas e com uma ampla cultura geral.

A divisão de São Paulo se refletia nos clubes. Os italianos freqüentavam o Palestra Itália, hoje Palmeiras. Os alemães, o Germânia, que mudou o nome para Pinheiros. Os ingleses tinham o SPAC. Os quatrocentões eram do Paulistano. Os sírios e libaneses fundaram dois grandes clubes – o Monte Líbano e o Sírio. Os judeus ergueram a Hebraica e o Macabi.

Como é comum entre imigrantes, a primeira geração faz dinheiro. A segunda, vira doutor. Com os anos, um número enorme de advogados e médicos judeus e sírio-libaneses começaram a dominar as cadeiras da USP e da Paulista. Falo porque sou neto de um comerciante nascido em Rachaya, no vale do Beqaa, e filho de um professor-titular da Escola Paulista de Medicina, hoje UNIFESP. Estas duas comunidades construíram  dois dos melhores hospitais de São Paulo, o Einstein e o Sírio-Libanês.

Judeus e árabes também entraram na política, elegendo deputados, senadores, prefeitos e governadores em todo o Brasil. Hoje, estão totalmente integrados ao país. Tanto que o próprio clube Paulistano, da aristocracia da cidade, teve presidentes judeu e libanês, mostrando que as barreiras foram superadas, apesar de ainda existir preconceito. Certamente, bem menor do que nos anos da minha avó, impedida de estudar em um colégio de freiras em São Paulo, apesar de cristã melquita (grego-católica), com o argumento de que “batismo de bispo turco não valia”.

Com esta integração, e diante dos conflitos no Oriente Médio, o Instituto Futuro de Cultura Islâmica, a Hebraica, o Monte Líbano, o Sírio, o Pinheiros, o Centro de Cultura Judaica, o Instituto Bibliaspa de Cultura Árabe, a Congregação Israelita Paulista, a Federação Israelita de São Paulo, o Hospita Sírio-Libanês, o Hospital Albert Einstein e a FAAP participarão da Corrida da Amizade, organizado pelos Caminhos de Abraão, uma entidade que busca a paz no Oriente Médio. O percurso será de 7k, entre o Monte Líbano e a Hebraica.

As inscrições podem ser feitas aqui

Obs. Mais tarde, comentarei sobre os indiciamentos de acusados no assassinato de Rafik Hariri

Obs2. Sigo de férias, mas em NY mesmo

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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