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De NY a SP – Letra de mão começa a desaparecer nos Estados Unidos

gustavochacra

18 de julho de 2011 | 09h16

no twitter @gugachacra

O ensino da letra de mão será opcional em Indiana e deverá ser banido definitivamente nos próximos anos. A decisão deve ser seguida por mais de 40 Estados americanos que também consideram esta forma de escrever como ultrapassada. Na avaliação deles, é mais importante se concentrar no aprendizado das letras de fôrma.

O argumento dos defensores desta lei, que provocou polêmica nos Estados Unidos nas últimas semanas, é de que hoje as crianças praticamente não necessitam mais escrever as letras com caneta ou lápis no papel. Segundo eles, é preciso aprender a digitar mais rapidamente, já que quase toda a comunicação se dá através de letras de fôrma nos celulares e nos computadores.

“As escolas devem decidir se pretendem ensinar letra cursiva (de mão), mas recomendamos que deixem de ensinar e se foquem em áreas mais importantes. Também seria desnecessário encomendar apostilas que ensinem letras cursiva”, diz um memorando do Departamento de Educação de Indiana.

A Carolina do Norte também já anunciou que deve adotará medida similar, segundo suas autoridades educacionais. A Geórgia é outro Estado recomenda o fim do ensino, segundo seu porta-voz Matt Cardoza, apesar de “aceitar que os alunos aprendam a letra de mão caso os professores considerem necessário”.

Estes Estados, assim como outros 40, integram o Common Core Stated Standards Initiative (Iniciativa para um Padrão Comum de Currículo), responsável por tentar padronizar o ensino básico nos Estados Unidos e defensora do fim do ensino da letra cursiva.

Jody Pfister, diretor de um distrito escolar em Indiana, escreveu em um jornal local defendendo as mudanças. “Se olharmos antigos documentos ou se virmos a escrita de mão dos tempos da guerra civil, eles eram verdadeiros trabalhos artísticos e certamente perderemos parte disso. Mas temos que levar em conta o progresso”, escreveu.

Os opositores, além de levar em conta a tradição, dizem que a letra representa em parte a personalidade das pessoas, especialmente nas assinaturas, e também permitem que sejam lidos documentos históricos, como a declaração de independência dos Estados Unidos. Um encontro da  Master Penmen – Associação Internacional dos Instrutores de Letra de Mão se encerraria ontem no Arizona com um repúdio à decisão em Indiana. Eles contam também um apoio indireto do presidente Barack Obama, que tem o costume de escrever cartas de próprio punho para algumas pessoas, inclusive para agradecer aos eleitores.

Porém os alunos de Indiana não serão o únicos a aprenderem a escrever em apenas em letra de fôrma.  Em países que não adotam a escrita latina, especialmente na Ásia, os estudantes não costumam aprender a letra de mão quando estudam inglês, francês e outras línguas ocidentais. Assim, japoneses e chineses muitas vezes são capazes apenas de ler o que está escrito em letras de fôrma.

Os árabes, na sua escrita, onde não existem letras de fôrma, valorizam muito a arte da caligrafia. Muitas mesquitas, por não poderem possuir imagens, utilizam as letras, sempre de mão, como decoração. O Alcorão, livro sagrado do islamismo, é outro lugar onde o desenho da letra é valorizada.

E vou ser honesto com vocês. Também tinha letra de mão feia e ainda na adolescência comecei a escrever na de fôrma. Muitos dos meus amigos agiram da mesma maneira. Hoje, ainda escrevo com caneta para anotar entrevistas e algumas vezes para assinar meu nome. Mas nada além disso.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios


 

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