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De NY a Trípoli – A Casa Branca e o Goldman Sachs, o banco mais poderoso do mundo

gustavochacra

31 de maio de 2011 | 12h14

no twitter @gugachacra

Símbolo de Wall Street,  o Goldman Sachs sempre teve a reputação de ser uma das mais poderosas instituições financeiras do mundo, chegando a ser ironicamente apelidada de Government Sachs, em uma alusão à influência deste banco de investimentos na Casa Branca. Desde a sua fundação no século 19, superou uma série de crises, incluindo a depressão dos anos 1930 e o colapso financeiro de 2008 que sugou o concorrente Lehman Brothers e enfraqueceu o Merrill Lynch. Agora, pela primeira vez, o banco vê a sua imagem se deteriorar e o seu poder se esvair diante de uma série de escândalos, com o seu CEO, Lloyd Blankfein, correndo riscos no cargo.

As ações do Goldman Sachs despencaram no último mês de US$ 184 para US$ 142 depois de o Senado americano publicar um relatório de 640 páginas afirmando que o banco enganou o Congresso e os seus próprios clientes em suas apostas no mercado imobiliário, principal responsável pela eclosão da mais grave crise financeira dos EUA em sete décadas – a instituição nega. Pesquisa realizada pela Bloomberg indica que 54% dos investidores americanos possuem uma imagem negativa do Goldman Sachs. O banco foi alvo de duras críticas até mesmo no documentário vencedor do Oscar, Inside Job, sobre a crise de 2008.

Hoje, o Wall Street Journal publicou reportagem dizendo que o fundo soberano da Líbia investiu US$ 1,3 bilhão no Goldman. O investimento foi um fracasso, com o montante aplicado perdendo 98% de seu valor ao longo da crise econômica de 2008. O banco americano tentou ainda investir neste fundo em Trípoli nos meses seguintes, quando havia recebido empréstimos do governo americano. No fim, o negócio não evouliu.

Para completar, há poucas semanas, foi lançado o livro “Money and Power – How Goldman Sachs Came to Rule the World”, do colunista do New York Times William Cohan. Contando toda a história do banco, o jornalista discute como nos últimos anos a instituição perdeu pela primeira vez o apoio que costumava possuir em Washington desde 1932, quando dirigentes do banco estabeleceram relação de amizade com Franklin Roosevelt.

Em 2008, durante a administração de George W. Bush, por exemplo, o secretário do Tesouro era ninguém menos que Henry Paulson, ex-presidente do Goldman. Outros antigos integrantes do banco ocupavam cargos de destaque no governo americano, “como Steve Friedman, presidente do Federal Reserve (Fed, Banco Central) em Nova York e que também dirigiu o Conselho Nacional de Economia, e Josh Bolten, que era o chefe de gabinete de Bush”. Mas agoran, nos anos de Barack Obama, segundo Cohan, “os amigos do Goldman no alto escalão, sempre tão fundamentais para o sucesso da empresa, estão abandonando o (apoio à) instituição. Para complicar, no atual clima político polarizado em questões sócio-econômicas, o Goldman se sente cada vez mais isolado e demonizado”.

O senador Carl Levin, que preside a comissão que investiga crimes financeiros no Congresso, pode ser classificado como o maior inimigo do Goldman em Washington. Ele admite publicamente que sua raiva do banco é profunda. “Eles ganharam muito dinheiro através de apostas contra o mercado imobiliário e mentiram sobre isso. A cobiça deles é incrivelmente intensa”, afirmou. O senador acrescentou em depoimento que “as provas demonstram que o Goldman repetidamente colocou seus interesses acima dos clientes e das nossas comunidades”.

Até na cultura mais popular o Goldman passou a ser atacado, como em um filme que Michael Moore visita a antiga sede da instituição em Nova York para pedir de volta o dinheiro dos contribuintes – na verdade o banco aceitou o dinheiro a contragosto, pois não precisava, e pagou integralmente o empréstimo no prazo e com os juros. O ataque mais duro veio em reportagem na revista de música Rolling Stone, em que o reportagem dizia que “a primeira coisa que as pessoas precisam saber sobre o Goldman Sachs é que eles estão em todos os lugares”. “O mais poderoso banco de investimentos do mundo é uma grande lula-vampiro ao redor do rosto da humanidade, sugando o sangue de qualquer coisa que cheire dinheiro”. No mês passado, o escritor Frederick Kayfman publicou um artigo no site da revista Foreign Policy acusando o Goldman Sachs de estar por trás do aumento no preço dos alimentos. Em seguida, uma série de artigos de economistas disseram se tratar de exagero.

Como não depende de marketing para vender seu produto, já que seus clientes se importam mais com o retorno financeiro, o CEO do banco, Blankfein, deu umas escorregadas, quando como falou ao sair de depoimento no Congresso que “precisava fazer o trabalho de Deus”. Nos últimos meses, com os problemas do banco se acentuando, ele disse em entrevista a Fareed Zakaria, da rede de TV CNN, que é “preciso recuperar a confiança do público, não temos outra opção”. Alguns de seus aliados dizem se tratar de uma campanha populista de Washington que precisa arruma um bode expiatório e saída é sempre culpar a Goldman, que teve uma queda de 38% no faturamento no ano passado. Blankfein também conta com o apoio do bilionário Warren Buffett, principal investidor do grupo, mas ele está longe de ser a personalidade do ano do Financial Times em 2009 e a mais influente da Vanity Fair, também dois anos atrás.

No livro, um ex-sócio do banco, agora em uma nova sede ao lado de onde estava o World Trade Center, disse que “a Goldman é criticada por ser bem sucedida. Se todos os bancos de investimento fizessem o mesmo que o Goldman, não teria havido crise financeira”. Outro acrescenta que o “Goldman tem uma capacidade de mudar e sempre continuar fazendo dinheiro”.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br, com o comando do Gabriel Toueg e do João Coscelli, o Nuestra America, do Luiz Raatz, sobre América Latina, ” e as Cartas de Washington, da correspondente Denise Chrispim

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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