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De NY a Trípoli – Como os regimes de Kadafi e Assad, a oposição da Líbia e da Síria tem mentirosos

gustavochacra

23 de agosto de 2011 | 09h53

no twitter @gugachacra

Todos sabemos que os regimes de Bashar al Assad e Muamar Kadafi mentem. Isso é normal em ditaduras. O problema é que alguns dos líderes opositores também são mentirosos. Ontem tivemos a maior prova quando eles anunciaram a prisão de Seif Kadafi. Do New York Times ao Daily Star de Beirute, da BBC a Al Jazeera, de blogs nos EUA a este aqui, incluindo autoridades políticas internacionais, todos acreditavam que os rebeldes haviam conseguido prender o filho do ditador líbio.

Eu cheguei a assistir um dos “líderes” dos rebeldes afirmando com segurança na CNN que Seif estava sob custódia dos opositores e eles ainda não haviam definido se o entregariam para o Tribunal Penal Internacional de Haia ou não. Tudo mentira.

No início da madrugada em Trípoli, Seif apareceu vivo e animado no hotel onde estão os correspondentes estrangeiros na cidade. Matthew Chance, da CNN, o entrevistou. O filho de Kadafi, que para muitos seria cérebro do regime, até convidou o repórter para dar uma volta pelos pontos mais quentes da capital líbia.

Mas nem a aparição parece ter sido suficiente. Piers Morgan, entrevistador da CNN, insistiu que talvez “Seif tivesse sido preso e depois solto”. Será? Bom, nem vamos entrar nesta discussão. O próprio Matthew Chance, que está em Trípoli, o corrigiu dizendo que o filho de Kadafi nunca foi preso. Aliás, imagine a incompetência da oposição, se tivesse prendido Seif e permitido que ele fugisse. Demonstraria uma total incapacidade para governar uma nação.

Na Síria, acontece a mesma coisa. Um dos símbolos da oposição era “a menina  lésbica de Damasco”. Quer dizer, como descobrimos depois, um americano de 40 anos que vivia em Istambul e fingia ser uma homossexual de Damasco. Depois, a embaixadora síria em Paris teria rompido com o regime. Corrigindo, uma integrante da oposição fingindo ser a representante de Assad na capital francesa. O ministro da Defesa, depois de afastado, teria sido assassinado pelas forças do regime. Isso, claro, até ressuscitar no dia seguinte e dar entrevista à TV.

Temos que tomar cuidado ao acompanhar os acontecimentos no mundo árabe. Existe torcida para que democracias consolidem-se nestes países. Mas não há nada garantindo que os opositores sejam democráticos. Vale lembra que, na Líbia, grande parte da liderança rebelde era do regime de Kadafi. Isto é, poderemos ter más de lo mismo. Mais ou menos como o Sarney, que virou o primeiro presidente civil do Brasil depois da redemocratização.

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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