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De Porto Príncipe a Beirute – Uma viagem do apocalipse ao paraíso

gustavochacra

22 de dezembro de 2010 | 08h30

Uma amiga libanesa me convidou para almoçar em Beirute no início deste mês. Em outros anos, iríamos a algum restaurante da região de Ashrafyeh, como é conhecido o sofisticado bairro cristão da capital libanesa, sendo o equivalente dos Jardins ou da Recoleta. Desta vez, ela indica outro lugar. “Você me encontra no restaurante People, que fica na cobertura da loja Aishiti”, diz a jovem libanesa de origem armênia, citando a loja que seria uma espécie de Daslu dos cedros, localizada no centro reconstruído de Beirute, que até pouco tempo atrás jamais integraria a lista de prioridades da elite libanesa. No restaurante, em vez de kibe cru, steak tartar, além de vistas para o Mediterrâneo e os montes do Líbano, com mulheres elegantes que poderiam estar no Balthazar de Nova York.

Cerca de quinze anos atrás, circulei nestas mesmas ruas pela primeira vez. Eram prédios com marcas de bala, mato crescendo em ruas abandonadas, igrejas em ruínas e nenhum pedestre nas ruas. Nem mesmo os guerrilheiros. Ao longo dos anos seguintes, retornei diversas vezes para Beirute, acompanhando passo a passo a reconstrução que teve seus reveses, incluindo uma ocupação do Hezbollah e de seus aliados cristãos e um conflito contra Israel. Ao ver Beirute reerguida, para quem a viu destruída nos anos 1990, depois do fim dos 15 anos de guerra civil, demonstra que há sim formas de se reconstruir e tentar voltar ao apogeu de outras épocas. Mesmo depois de mais uma guerra em 2006 e o risco de outra a qualquer momento, a capital libanesa se transforma mais uma vez no centro cultural e boêmio do Mediterrâneo Oriental, com seus hipsters e playboys, com sunitas e xiitas, com cristãos e druzos, falando na língua do hi-kifak-ça va, misturando o árabe, o inglês e o francês em meio a vinhos do Beqa, cerveja Almaza, Arak ou mesmo um suco de jelab.

Na semana anterior ao meu jantar em Beirute, acompanhei uma patrulha brasileira no centro destruído de Porto Príncipe, capital do Haiti. Os oficiais e os soldados discutiam como seria quase impossível reconstruir esta cidade que um dia foi chamada de pérola do Caribe. De todos, apenas eu havia estado ali também na época do terremoto. Percebi melhoras, apesar de ainda enxergar Porto Príncipe como a imagem do apocalipse. São quarteirões e quarteirões de ruínas, de fachadas de farmácias no chão, de supermercados de comidas apodrecidas, de cheiro de morte, de haitianos vagando como zumbis para algum lugar inexistente, sem diversão e sem a menor perspectiva de futuro, ilhados entre o oceano e a reforçada fronteira dominicana. Em alguns locais, havia documentos perdidos de um sobrevivente ou de uma vítima. Em outros, calcinhas no meio de entulho deixavam exposta a intimidade de mais alguém que talvez tenha morrido nos abalos da ilha de Hispaniola.

Às vezes, ainda se vê corpos nas ruas, mas não de mortos no terremoto. São vítimas da cólera abandonadas nas calçadas e, devido ao caro preço de um funeral, queimadas ali mesmo, na frente das crianças, quando não são crianças elas próprias. As casas não foram reerguidas. Em Porto Príncipe, praticamente não há espaços livres. Todas as praças estão ocupadas por acampamentos onde vivem centenas de milhares de haitianos que viram suas casas ou barracos virarem escombros no tremor de janeiro. Na orla, há uma favela com porcos diante de um mar caribenho que mais parece um esgoto a céu aberto. Bebês ficam jogados em um chão que serve de cama, mesa e banho para família.

Os dois principais hotéis, o Christopher e o Montana, desmoronaram, matando centenas de pessoas, incluindo funcionários da ONU. Nem mesmo o imponente Palácio Nacional, onde “reinou” Papa Doc, escapou. Ainda em ruínas, haitianos ainda observam inertes atrás das grandes o que um dia foi o símbolo de um país arrasado em um terremoto de menos de um minuto.

O tremor faz aniversário de um ano no dia 12 de janeiro. Beirute demorou mais de uma década para se reerguer dos 15 anos de guerra civil. Não dá, portanto, para cobrar que o Haiti esteja de pé novamente. A dúvida é se o modelo aplicado na capital libanesa poderia ser repetido em Porto Príncipe. As duas cidades têm algumas similaridades, além do histórico de destruição. Primeiro, a haitiana foi colônia francesa, enquanto Beirute esteve sob mandato francês. Além disso, estão à beira do mar com montanhas que se erguem depois de uma estreita faixa de planície. E, para completar, as remessas da diáspora são fundamentais para as economias dos dois países. Mas estes pontos comuns não são suficientes na hora de falar em reconstrução, quando as diferenças aparentam pesar mais.

O Líbano tem um dos mais sólidos sistemas financeiros do mundo árabe. Há universidades de prestígio como a Saint Jouseph e a Universidade Americana de Beirute. Depois de Israel, os libaneses têm os que são considerados melhores médicos do Oriente Médio. Já o Haiti não tem sistema de saúde, dependendo de ajuda de entidades como a Cruz Vermelha. Suas universidades são fracas e, para complicar, muitos dos prédios desmoronaram no terremoto. Não há classe média. E a diáspora, apesar de contribuir com a economia, não integra a elite em outros países, como no caso libanês. Apenas para ficar em um exemplo simples, Carlos Slim, um dos dois homens mais ricos do mundo, é filho de libaneses. E há libaneses milionários do São Paulo a Freetown, da Sydney a Paris, de Detroit a a Abu Dhabi – e, curiosamente, as raras fortunas haitianas costumam ser de pessoas com origem no Líbano.

Rafik Hariri era um destes libaneses bem sucedidos na diáspora. Nascido em uma família pobre de Sidon, se mudou para a Arábia Saudita, onde fez fortuna na área da construção. Durante a guerra civil, se manteve distante do Líbano. Retornou depois dos acordos de Taif, em 1989, que ajudaram a encerrar formalmente o conflito, com bilhões no bolso em um país destruído. Eleito primeiro-ministro, decidiu levar adiante a reconstrução de Beirute em uma mistura da iniciativa pública, de seu governo, com a privada, de sua empresa Solidere. Em 1994, começou o processo.

O projeto de Hariri visou adquirir os imóveis destruídos no centro da capital libanesa em troca de ações da Solidere. Desta forma, ele pôde reerguer quase todos os edifícios destruídos ao longo da década seguinte. Igrejas e mesquitas, com o apoio financeiro de sua empresa, em alguns casos, também foram reconstruídas. Até mesmo a sinagoga está praticamente completa, depois de um esforço conjunto com a comunidade judaica na diáspora. Embaixadas, incluindo a brasileira, também se transferiram para a região, que recebeu o apelido de Solidere.

Nem tudo foi perfeito neste processo. Opositores de Hariri o acusavam de corrupção. Outros questionaram a gigantesca mesquita construída na praça dos mártires que ofuscou torres de igrejas já existentes. Muitos urbanistas dizem que há um ar de artificialidade na região, a comparando a uma espécie de Disney ou Dubai. Alguns proprietários também questionaram o monopólio da Solidere e se recusaram a vender seus imóveis, como o Hotel Saint George – ironicamente, o local onde Hariri foi assassinado em atentado em 2005, e que ainda segue em pedaços.

Quando tudo caminhava para a normalidade em 2006, a guerra de Israel contra o Hezbollah arrasou a região sul de Beirute, controlada pelo Hezbollah, apesar de ter deixado o centro intacto. A organização xiita, com auxílio de dinheiro da diáspora, do Irã e do Qatar, também conseguiu reerguer Dahieh.

No Haiti, não existe um Hariri ou milionários na diáspora com capacidade de bancar esta obra de reconstrução. Todo o projeto de dependerá de ajuda internacional. A destruição também é bem maior do que a de Beirute. No Líbano, o centro ruiu, mas outras áreas da cidade conseguiram se manter relativamente intactas. Por mais que Beirute tenha renascido, fica difícil imaginar o mesmo cenário no Haiti. Talvez, daqui 15 anos, seja possível ir a um restaurante projetado por arquitetos renomados em um hotel diante do Palácio Nacional de Porto Príncipe, mais uma vez de pé, como ocorreu em Beirute. Mas, por enquanto, como dizem os militares brasileiros, isso ainda é um sonho. Porto Príncipe segue sendo o apocalipse. E, diferentemente das guerras libanesas, ali as tragédias naturais nunca dão trégua.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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