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De resistência a terrorista – Afinal, o Hezbollah é anti-Israel ou anti-Líbano?

gustavochacra

29 de outubro de 2010 | 10h16

Existem três formas de enxergar o grupo libanês Hezbollah

1. Uma organização terrorista focada em destruir Israel

2. Uma organização social e política que serve de resistência contra Israel

3. Uma organização que opera um Estado dentro do Estado no Líbano, desrespeitando a soberania libanesa

O problema é que a tradicional discussão “Fla-Flu” levou grande parte da comunidade internacional a se dividir entre 1 e 2. Muitos também observavam o “3”, mas consideravam um problema menor. Basicamente, quem considera o Hezbollah como “1” não está tão preocupado com o destino do Líbano, mas o de Israel. E quem enxerga o Hezbollah como “2” tampouco está preocupado com o futuro do Líbano, mas o dos interesses do Irã

A Guerra de 2006 foi uma guerra dos que vêem o Hezbollah como “1” (terrorista) contra os que vêem o Hezbollah como “2” (resistência). Os que consideram o Hezbollah como “3” (Estado dentro do Estado) foram ignorados.

A pressão de colocar o Hezbollah como “1” apenas fortalece o “2” e isola a terceira visão, que talvez seja a mais importante. E é fácil entender. O “1” é a visão dos EUA, de Israel, dos europeus. Certa ou errada, não desfruta de apoio no mundo árabe e islâmico. Quanto mais dizem que o Hezbollah é terrorista, mais a população local considera a organização uma resistência.

Já a visão “3”, que critica o Hezbollah por ser um Estado dentro do Estado, desrespeitando a autoridade libanesa, conta com o suporte de cerca da metade dos libaneses. São a quase totalidade dos sunitas, setores mais radicais dos cristãos e dos druzos. Também é apoiada por quase todos os governos árabes, menos o Iraque e a Síria. Eles afirmam que o Hezbollah deveria respeitar a soberania libanesa.

Muitos ao redor do Oriente Médio também aceitam o “2” (resistência), mas consideram um absurdo o “3” (Estado dentro do Estado).

Se as forças ocidentais derem suporte ao governo libanês (do qual o Hezbollah faz parte, apesar de opositor, como minoritário junto com a AMAL e seus aliados cristãos populistas), ficará cada vez mais difícil de a organização xiita se defender da terceira visão. Afinal, o grupo estaria indo contra os interesses dos libaneses, e não de Israel. Neste sentido, o Hezbollah seria anti-Líbano, e não anti-Israel.

Alguns dirão aqui que, ao ser uma resistência, o Hezbollah defende o Líbano da agressão israelense. Isso fazia sentido quando Israel ocupava ilegalmente o território libanês ao sul do rio Litani. Era resistência pura, contra a ocupação. Não faz mais sentido depois que Israel se retirou em 2000.

As Fazendas de Shebaa e Ghajjar não justificam o Hezbollah ter a milícia mais bem treinada do mundo. Claro, Israel poderia facilitar e desocupar os territórios,  que são minúsculos.

O Hezbollah pode e deve seguir fazendo parte da política e da sociedade libanesa, como qualquer outra organização política do país (aliás, outras facções armadas, como as cristãs Forças Libanesas, também deveriam se desasrmar). O grupo tem razão também ao dizer que os xiitas não são bem representados. Na verdade, o Líbano passou da hora de substituir o sectarismo pelo secularismo. O que o Hezbollah não pode é, sem o aval da população libanesa, assumir a função de Exército e entrar em guerra com o inimigo. Levando, claro, todo o país junto.

Resumindo, o Hezbollah pode ser 1 ou 2. Mas resolvendo a terceira questão, certamente todos, incluindo Israel, sairiam fortalecidos. A não ser, claro, aqueles que adoram ver o Líbano instável.

Lembro que, até hoje, o Hezbollah não cometeu atentados terroristas dentro de Israel. Todas as suas ações suicidas foram de insurgência contra israelenses e seus aliados de uma milícia libanesa dentro do sul do Líbano. Em 2006, a organização atacou Israel em ações de guerrilha. Porém, provavelmente, segundo o tribunal da ONU, poderemos descobrir que o Hezbollah já foi terrorista sim. E dentro do Líbano, ao matar o ex-premiê Rafik Hariri (pai do atual), em um mega atentado diante do Hotel Saint George, na orla de Beirute

obs. O caso da AMIA é mais complexo e escrevi posts sobre o assunto no passado. Basta dar uma busca como AMIA aqui no blog

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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