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De São Paulo a Nova York – 50 horas para voltar para casa ou ver neve pela primeira vez

gustavochacra

29 de dezembro de 2010 | 04h24

De São Paulo a Nova York, em 50 horas. Esta foi a duração da viagem de nós passageiros do voo da TAM 8080 que embarcamos às 22h30 do 26 de dezembro, domingo, e chegamos ao destino final apenas às 21h30  de ontem, terça-feira  (0h30 de Brasília, já na quarta).

Ainda no aeroporto de Cumbica, os passageiros começaram a estranhar que os voos de outras companhias, como a Delta e a American Airlines, haviam sido cancelados. “Por que será que a TAM não cancelou?”, questionou um passageiro que iria esquiar com a noiva no Colorado, via Nova York. Outros recebiam ligações de parentes advertindo que viram na TV que o aeroporto JFK estava fechado.

Na porta do avião, o comandante me garantiu que pousaríamos em Nova York. Mas na manhã seguinte ele anunciou que seria preciso aterrissar em Miami porque não havia condições climáticas para chegar ao JFKl devido à nevasca. Desembarcamos, passamos pela imigração e alfândega. Depois de duas horas de espera, fomos divididos em grupos e distribuídos por hotéis em Miami. Alguns aproveitaram para fazer compras em shoppings. Até aquele momento, todos estávamos calmos.

Com a parada, a TAM informou que o voo sairia às 3h da manhã de ontem (6h de Brasília) e os passageiros deveriam se reunir à meia-noite no lobby do hotel. Porém decidiram adiar para as 10h. Três horas antes, os ônibus partiram levando os passageiros. Quando todos estávamos no avião, com cintos afivelados, o comandante anunciou – “há apenas uma pista em operação em Nova York e precisaremos esperar quatro horas mais para partir”. Neste momento, a paciência dos passageiros se esgotou.

“Assim que decidiu sair do Brasil, a TAM passou a ter culpa”, disse um. “Não quero comer, quero ir para Nova York”, disse outro em resposta ao anúncio de que a companhia daria um vaucher de US$13 para alimentação. “Vamos pegar a comida da primeira-classe, fazer um amigo secreto e celebrar o reveillon”, acrescentou uma passageira mais animada.

A advogada Vera Maria Lacerda, que viajava com a filha, estava revoltada. “Perdi dois dias de hotel em Nova York. A TAM deveria me reembolsar. Ou pelo menos trocar a minha passagem para dois dias mais tarde”, afirmou. Mais grave era a situação do engenheiro mecânico Maximo Nemer, de Curitiba. Ele faria uma escala em Nova York com a mulher e dois filhos antes de seguir para a Califórnia e Havaí. “Já perdi meus três dias em San Francisco. Agora, ainda tenho que chegar a Nova York e ver se consigo embarcar os quatro para o Havaí”, afirmou, triste pelo fim das férias.

Às 14h (17h de Brasília), entramos no avião, que finalmente decolou. Quando nos aproximamos de Nova York, começamos a voar em círculos esperando pelo momento de pousar. Eu estava na janela. Ao meu lado, uma dentista chamada Margarete, que nunca havia visto neve, assim como a amiga da academia e o irmão dela. Todos estavam ansiosos. Queriam, no dia seguinte, acordar cedo no albergue e ir ao Central Park.

O avião pousou apenas às 18h. O comissário, em meio a aplausos, disse – “nós prometemos trazê-los com segurança e conseguimos”. Margarete, emocionada, olhava pela janela a pista completamente branca. Fiquei com inveja dela. Nunca, na minha vida, terei a sensação de ver neve pela primeira vez aos 30 anos, já que conheci ainda criança. Deve ser uma sensação mágica descobrir a neve já adulto. A Vilma, que cozinha para mim comida brasileira duas vezes por semana em Nova York, também viu neve pela primeira vez anteontem. Segundo me disseram, tirou várias fotos para enviar à família no Brasil. Imaginem passar quatro décadas sonhando com a textura, com a temperatura, com a cor branca da neve?

O comandante anunciou que precisaríamos esperar “um bocado” até estacionar o avião. Segundo ele, cerca de “duas horas”. No fim, foram três horas e meia, se as minhas contas não estão erradas. “Porta em manual – Senhores passageiros, vocês foram fantásticos”, disse o comandante. Mais uma hora e meia para pegar as malas, uma hora de fila para o taxi e outra para chegar à minha casa, que é Nova York. Consegui voltar, depois de uma temporada que incluiu Haiti, Líbano e São Paulo.

Mas, no meio da confusão, perdi a Margarete de vista. Queria vê-la pela primeira vez pisando na neve acumulada, na porta do aeroporto. Nova York estava linda hoje, toda branca, de inverno, depois do colorido do outono. Agora, de volta para minha casa, retornarei com tudo nos assuntos de política internacional a partir de amanhã. Peço desculpas pela folga de Natal e o inconveniente do vôo que me impediu de postar.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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