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De São Paulo a Tel Aviv – Israel apenas terá paz quando for como a Hebraica

gustavochacra

28 de julho de 2010 | 07h27

Theodor Herzl, fundador do movimento sionista, sonhava com um país igual a qualquer outro, com a diferença de que a maioria de seus cidadãos seguiria a religião judaica, minoritária nos países europeus, árabes e americanos. Dos médicos aos motoristas de táxi, quase todos seriam judeus, como na Itália são italianos. Israel atingiu este objetivo, tendo ainda entre seus habitantes uma minoria árabe. Mas Herzl, um secular, talvez discordasse do crescimento da religiosidade entre os israelenses, dos assentamentos na Cisjordânia e do bloqueio a Gaza.

Caso visitasse a Hebraica, em São Paulo, Herzl dificilmente conseguiria fazer críticas. Na verdade, ele ou qualquer pessoa do fim do século 19 ficaria impressionado com a integração dos judeus a uma das maiores cidades do mundo. O clube judaico conseguiu literalmente ser como qualquer outro, se não melhor. Na época de suas fundações, cada clube paulista representava uma parcela distinta da população paulistana, ainda formada em grande parte por imigrantes nascidos na Ásia e na Europa.

Os quatrecentões se dividiam entre os Paulistano e o Harmonia. Os alemães criaram o Germânia, que na Segunda Guerra passou a se chamar Pinheiros. Os italianos tiveram uma história parecida, com o Palestra Itália, hoje Palmeiras. O SPAC mantém ainda o apelido de “clube dos ingleses”. Libaneses e sírios construíram o Monte Líbano e o Sírio. E os judeus ergueram a Hebraica, na rua Hungria.

O clube, por dentro, é dos melhores de São Paulo, com piscinas olímpicas, 14 quadras de tênis, uma pista de cooper arborizada, sauna, biblioteca e até o ginásio dos Macabeus. Os sócios podem comer na doceria Amor aos Pedaços ou no mais tradicional bar do Pedrinho. Apesar de judaico e de possuir uma sinagoga, o clube não é religioso. Ninguém irá negar um mixto quente ou um cheese-burger na Hebraica.

Os atletas do clube judaico ainda levam uma vantagem que sempre deixou os jogadores de pólo aquático do Paulistano, meu clube, com inveja. Eles disputavam uma Olimpíada, a Macabíada, que reúne jovens judeus de todas as partes do mundo para competir em dezenas de modalidades esportivas em Israel.

Verdade, sócios judeus de outros clubes também podem disputar a Macabíada. Mais importante, podem até mesmo ser presidentes de seus clubes, como já aconteceu no Paulistano, presidido por um judeu nos anos 1990 – hoje é por um filho de libaneses.

A Hebraica seria um resumo de Israel, do sonho de Herzl, mas com a vantagem de não ter os problemas da ocupação, das guerras e da inimizade dos vizinhos. Enquanto não existir uma “Palestina”, Israel não será uma Hebraica. Aliás, os palestinos também tem seu clube, em Santiago, no Chile.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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