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De São Paulo a Tel Aviv, uma repórter brasileira entre israelenses e palestinos

gustavochacra

02 de outubro de 2009 | 09h13

Depois da cobertura da Guerra de Gaza e antes das eleições israelenses, o jornalista da rede Globo Alberto Gaspar convidou alguns brasileiros para jantarem em sua casa em Jeursalém. Entre os presentes, estava a repórter da BBC-Brasil Gila Flint, que eu já conhecia por suas matérias em jornais, rádios e TVs do Brasil. Carismática, ela descreveu a todos a sua impressionante história de vida entre São Paulo e Tel Aviv. Agora, lançará, no dia 15, o livro “Miragem de Paz – Israel e Palestina, Processos e Retrocessos, da editora Civilização Brasileira. Uma raridade, já que são poucas as publicações escritas originalmente em português sobre o Oriente Médio, ainda mais por alguém com quatro décadas de Israel e territórios palestinos.

Abaixo, trechos da entrevista que fiz com a Gila Flint, que viaja hoje de Tel Aviv para São Paulo

Como você virou correspondente em Israel?

Comecei a trabalhar em jornalismo em 1992, escrevendo sobre o Brasil para o jornal israelense Davar. Em 1995, a direção do meu trabalho se inverteu e passei a escrever sobre o Oriente Médio, para a imprensa brasileira.
A mudança ocorreu depois do assassinato de Itzhak Rabin, em novembro de 1995. Eu estava em São Paulo naquela época e, logo depois de ouvir a notícia, escrevi espontaneamente um texto, reagindo e analisando o assassinato, que acabou sendo publicado no Jornal da Tarde. Quando voltei para Israel, continuei escrevendo para o jornal e depois passei a trabalhar para o Estado de S. Paulo. No início de 1997 uma pessoa da Globo News, que tinha lido um artigo que escrevi no Estado, me convidou para trabalhar e, um mês depois, também comecei a colaborar para a BBC Brasil. Durante os anos de 95 a 2002 colaborei com a Carta Capital, o Correio Brasiliense , a revista portuguesa Visão e outros. Em 2000 lancei, em co-autoria com Bila Sorj, o livro Israel Terra em Transe – Democracia ou Teocracia? pela Editora Civilização Brasileira. Em 2002 resolvi passar a trabalhar exclusivamente para a BBC Brasil, cobrindo Israel e os Territórios Palestinos.

Sobre o que se trata o livro?

O livro traz uma seleção de textos que escrevi nos últimos 14 anos, organizados por capítulos históricos, seguindo o que chamo de agonia do processo de paz. Começa com aquele meu primeiro artigo para o Jornal da Tarde, sobre o assassinato de Rabin, fato que considero um dos golpes mais duros que o processo de paz sofreu. E vai ate julho de 2009, durante o segundo governo de Binyamin Netanyahu.

O livro aborda os principais obstáculos para a solução do conflito e a radicalização que ocorreu nas duas sociedades, junto com a perda da confiança na possibilidade de paz. A ampliação dos assentamentos israelenses na Cisjordânia, a construção do Muro, o fortalecimento do Hamas, os atentados suicidas contra civis israelenses, as diversas negociações fracassadas e os confrontos violentos – a segunda Intifada, a segunda Guerra do Líbano, a ofensiva israelense a Faixa de Gaza –tem destaque nos textos.

Qual a solução para o conflito entre israelenses e palestinos e por que ainda não chegamos à paz?

Nas circunstâncias atuais, depois de 14 anos do que considero retrocesso, é bastante difícil imaginar um avanço real do processo de paz que leve a uma solução do conflito. Na minha opinião, o chamado processo ocorreu de fato apenas durante pouco mais de 2 anos – desde setembro de 1993, quando Itzhak Rabin e Yasser Arafat assinaram o Acordo de Oslo, até novembro de 1995, quando Rabin foi assassinado.

Naquele curto período, houve realmente um avanço que parecia promissor – se criou a Autoridade Palestina, Israel se retirou de todas as cidades palestinas e havia uma relação de confiança entre Rabin e Arafat que possibilitava a continuação do processo. Naquela epoca a maioria das duas populações apoiava o processo. Depois do assassinato de Rabin e dos atentados suicidas do Hamas contra civis israelenses, a direita voltou ao poder em Israel e se agravou o retrocesso que continua ate hoje.
Como diz o titulo do meu livro, durante esses 14 anos o processo de paz não foi mais do que uma miragem.

Dezesseis anos depois do Acordo de Oslo, o número de colonos israelenses que moram em assentamentos na Cisjordânia se triplicou, de cerca de 100 mil para quase 300 mil. Mais 200 mil israelenses moram na parte oriental de Jerusalém, que os palestinos reivindicam como capital de um futuro Estado Palestino. Os assentamentos pontilham grande parte do território onde se supõe que será criado o futuro Estado Palestino.

Hoje em dia não existe uma liderança política na sociedade israelense que esteja disposta a retirar os assentamentos e que tenha o apoio necessário para fazê-lo. Na sociedade palestina a situação não é menos complicada. Com o fracasso do processo de paz a liderança secular e moderada dos palestinos perdeu a credibilidade e o Hamas se fortaleceu e já controla a Faixa de Gaza. Grande parte dos palestinos, que perdeu a confiança na agenda do Fatah, passou a apoiar o Hamas. Nessas circunstancias é difícil ver uma solução a curto e mesmo a médio prazo. A solução de dois estados, com a volta de Israel as fronteiras de 1967, e uma solução para as questões mais espinhosas do conflito – dos refugiados e de Jerusalém -, me parecem bastante distantes nesse momento. No contexto atual, a eclosão de uma nova onda de violência na região parece mais provável do que um avanço significativo do processo de paz.

Como foi a sua experiência no kibutz?

Cheguei em Israel quando tinha 14 anos, e fui diretamente de São Paulo para um kibutz, onde morei um ano. Chegar, de uma cidade grande e dinâmica como São Paulo, a um lugar pequeno e limitado como um kibutz, foi um choque para mim. Morava e estudava com jovens da minha idade, que tinham nascido no kibutz e conheciam muito pouco da “vida lá fora”. Eu sentia bastante sufocada no kibutz e não me adaptei, depois de um ano mudei para Tel Aviv, que para mim era mais parecida com São Paulo.

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