As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

De SP a NY – Aos 35 anos, um relato para as pessoas que, como eu, moram fora do Brasil

gustavochacra

27 de maio de 2011 | 02h30

no twitter @gugachacra

Um dia talvez eu sinta falta de não ter passado meu aniversário com a minha família. É o sexto ano seguido que passo longe. Em Nova York. Mais uma vez. Mas aprendo. Sou uma pessoa que mora fora. Nós que moramos fora aprendemos que a saudade se torna tão rotineira que penetra na nossa personalidade.

Vivemos em um passado. A São Paulo de nós que moramos fora se congelou no dia que demos adeus a quem gostamos no aeroporto de Cumbica. Voltamos para visitar. Uma, duas, três vezes por ano. Até quatro. Mas não adianta. São Paulo continua na nossa memória como se fosse aquela de quando partimos.

Eu vim em agosto de 2005. Veio 2006, 2007, 2008, 2009, 2010 e agora 2011. Entro no meu sétimo ano morando fora. Namorei, morei junto e terminei noivado. Conheci algumas das pessoas mais importantes da minha vida. Sem querer, me afastei de outras que foram muito importantes no passado. Elas são da minha São Paulo congelada, de 2005.

Ao mesmo tempo, para as pessoas de São Paulo, eu também congelei. Ainda estou em 2005. Verdade, quando vou ao Brasil, todos me perguntam das viagens. Guerra em Gaza, Terremoto no Haiti, Golpe em Honduras. Andar nas ruas de Beirute, de Porto Príncipe. Jantar em Damasco ou Sanaã. Mas, no fundo, todos ainda me consideram aquele menino dos Jardins, do Paulistano, do pólo aquático, do Litoral Norte. Ou eu acho que eles me enxergam assim. Afinal, foi desta forma que me congelei quando deixei o Brasil.

O estranho de morar fora é isso. São Paulo congelou no tempo, e eu amadureci em Nova York. Ao mesmo tempo, a São Paulo de quem ficou evoluiu no tempo e eu congelei em Nova York. Seis anos fora, sem falar outras vezes em que vivi na Carolina do Sul, Boston, Beirute e Buenos Aires me tornaram uma pessoa diferente. Tive traumas e experiências que me afetaram para sempre.

No Brasil, as pessoas evoluem em suas vidas. Alguns casam. Outros têm filhos. A minha sobrinha aprendeu a falar. Alguns amigos ficaram carecas. Outros grisalhos. A maioria dos homens está barriguda. A maioria das mulheres perdeu o brilho da pele dos 20 anos, mas ganhou a segurança dos 30.

Meu pai virou avô. Minha mãe virou avó. Meu irmão mais velho é pai de família.  Quando fui embora do Brasil, não existia iPhone. Facebook, apenas para quem era de universidade americana. A seleção brasileira ainda era a última campeã do mundo. Lady Gaga, Julian Assange e Mark Zuckerberg não eram ninguém. Quase nenhum brasileiro sabia quem era o Obama. E também a Dilma, atual presidente. O Lula estava no primeiro mandato. Eu não tinha nem 30 anos.

Faz tanto tempo que moro fora, que quando me mudei, meu sobrinho havia nascido há um mês. Hoje, ele já sabe ler. Nestes seis anos morando fora, eu já entrei nos Estados Unidos mais de 30 vezes. Quando eu mudei para Nova York, achei que fosse ser rotativo. Que viria, ficaria dois anos, e voltaria. O tempo de morar fora. Como meus pais em Dallas e tantos amigos que conheci aqui em Nova York. Ele vêm, ficam nossos amigos, integram nossas vidas e partem. Em Nova York, é uma eterna despedida. E também boas vindas. Sempre tem gente chegando e gente indo. E nós permanentes ficamos. Hoje, sou permanente.

A minha cidade é Nova York. Meu bairro é o Upper West Side. Meu Frevo é o PJ. Meu Palmeiras é o Yankees. Meu presidente é o Obama. Meu prefeito é o Bloomberg. Meu jornal é o New York Times. Não é para me exibir. Apenas quem é de São Paulo acha ser exibicionismo dizer que é de Nova York. Meu avô era de Rachaya, no Líbano, mas viveu em Rio Preto. Meu pai era de Rio Preto, mas vive em São Paulo. Eu sou de São Paulo, mas vivo em Nova York. Meu bisavô também passou por aqui, entrando por Ellis Island.

Hoje, faço 35 anos. Mais tarde, se ocorrer algo pelo mundo, escreverei um post com análise. Obrigado aos leitores pelos últimos três anos e, pelo menos, neste post, vamos evitar brigas. E pediria aos que moram fora para comentar quais as sensações deles de morar um tempo longe do Brasil. Para mim, vale muito a pena. Não quero voltar nunca mais.

Leiam os blogs da Adriana Carranca, no Afeganistão, do Ariel Palacios, em Buenos Aires, do historiador de política internacional Marcos Guterman, em São Paulo, daClaudia Trevisan, em Pequim, o Radar Global, o blog da editoria de Internacional do portal estadão.com.br, com o comando do Gabriel Toueg e do João Coscelli, o Nuestra America, do Luiz Raatz, sobre América Latina, ” e as Cartas de Washington, da correspondente Denise Chrispim

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.