As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

De SP a Oslo – Brasil deveria dar aula de imigração para a Europa

gustavochacra

26 de julho de 2011 | 02h39

Comentários normalizados. Gostaria de pedir desculpas pelos problemas técnicos desta amanhã que impediram a publicação

Numa sala de aula da Noruega há 30, 40 anos, quase todos os sobrenomes eram escandinavos. Os alunos tinham as suas raízes nas vilas onde nasceram. Seus antepassados viveram nestes mesmos lugares séculos atrás. Ninguém era de fora. Não havia a noção de descendente. Todos eram noruegueses no nome, no sobrenome e na cultura. 

No Brasil, é diferente. Houve uma onda imigratória no século 20. Somos parte do novo mundo. Meu time de pólo aquático da adolescência no clube Paulistano tinha sobrenomes como Borghi, Raduan, Cocuzza, Santos, Weinstock, Seviciuc, Levy, Werneck, Barbosa e Sarhan. Outro exemplo é o de alguns comentaristas do blog – Nogueira, Farhat, Nusbaum, Huff, Siqueira, Botelho, Santiago, Firer e Abdulhamid. São os descendentes de alemães, italianos, judeus, portugueses e libaneses como no caso dos atletas ou dos leitores. Verdade, no Rio ou no Recife, haveria uma predominância de sobrenomes de origem portuguesa.

Em Oslo, não existe um hospital Albert Einstein ou um Sírio-Libanês. Tampouco clubes como o Monte Líbano, a Hebraica, o Pinheiros (antigo Germânia) e o Palmeiras (Palestra Itália). Um brasileiro pode ter traços orientais, negros, árabes, europeus ou mestiços. Não há uma definição de brasileiro. Veja as fotos das seleções brasileiras nas Copas do Mundo ao longo da história e encontrará de Pelé a Tafarel – sejamos justos, árabes, japoneses e judeus, pelo menos no Brasil, são pernas de pau e pouco aparecem. Mas pegue os atletas do basquete bi-campeões do mundo nos anos 1950 e 60 e os encontrará. Os ídolos recentes do esporte brasileiro foram Ronaldo, Guga Kuerten e Cielo. Um afro-português, um alemão e um italiano. Na Noruega, os grandes esquiadores ou jogadores de hóquei costumam ter nomes noruegueses. 

Porém ao longo das últimas décadas, assim como em outras nações europeias, a Noruega se transformou em pólo imigratório. Antes, as pessoas vinham apenas para a América. Era do Velho Mundo para o Novo Mundo. Não existia o fluxo contrário. Agora existe. Mais importante, os europeus, ainda que não os noruegueses, também mantinham presença na África e na Ásia. Hoje, os moradores das antigas colônias foram para metrópole.

Assim, vemos netos e filhos de argelinos em Paris; de paquistaneses e hindus em Londres; brasileiros em Lisboa e equatorianos em Madri. Estas pessoas imigraram e vão se estabelecer nestes países. Farão parte desta nova cultura. E há, claro, uma dificuldade de a população local aceitar os novos moradores. Em alguns casos, existe a diferença de religião, que acaba dificultando a adaptação em um primeiro momento. Também há a barreira da língua, ainda mais acentuada em nações como a Noruega, com um idioma menos conhecido quando comparado ao espanhol ou francês. 

De um lado, os europeus querem manter os seus valores. De outro, os novos imigrantes querem manter a sua cultura. Isso aconteceu no Brasil. Muitos filhos da primeira geração de nascidos em São Paulo mantiveram os nomes de seus lugares de origem. Depois, mudou.

Citei acima os sobrenomes dos jogadores de pólo da Paulistano nascidos entre 1975 e 77. Mas os nomes deles são Ricardo, Renato, Marcelo, Carlos, Luiz Filipe, Luís Henrique, Fernando e Eduardo. Entre os leitores, eles são Fabio, Gabriel, José Antonio, José, Ricardo, Francisco. Todos de origem portuguesa. Não sei se o mesmo acontecerá na Europa. Pode ser que sim, pode ser que não. E há uma diferença. Tirando um percentual mínimo da população, quase todos os brasileiros vieram de fora. Pode ter sido 500 anos atrás, mas eles são de outro lugar. Isso não se aplica a países como a Noruega. Os noruegueses não-imigrantes sempre foram de lá.

Além disso, no início do século 20, os imigrantes perdiam os laços com a terra natal. Atualmente, os estrangeiros podem ler os jornais de seu país na internet, falar com os que ficaram pelo skype, trocar emails e até mesmo ver as redes de TV.

O norueguês terrorista é fruto deste novo contexto. O problema é que ele levou ao extremo por motivos que ainda desconhecemos. E agora descobrimos que ele escreveu sobre o Brasil, demonstrando ter uma visão equivocada do nosso país. Temos muitos defeitos, assim como países europeus. Há políticos corruptos em Brasília, assim como Berlusconi em Roma e Chirac, tempos atrás, em Paris. A desigualdade é chocante, mas diminuiu. Porém nossa mistura promoveu uma das mais admiradas culturas de todo o mundo, quer queira, quer não. Como dizia um colega meu iraniano na universidade em Nova York, “quando você diz que é brasileiro, todas as pessoas abrem o sorriso para você. Quando digo que sou iraniano, todos ficam com uma expressão fechada”. Uma pena. Não deviam ver os iranianos assim. Mas a afirmação dele está correta. 

É muito legal ser brasileiro. Sou imigrante nos EUA. E tampouco quero deixar de lado minha cultura. Mas, devagar, começo a gostar mais do Yankees do que do Palmeiras e mais de baseball do que de futebol. O difícil seriam imaginar meu filho não sendo brasileiro, crescendo em outro país, sem torcer pela seleção na Copa. São estas discussões que passam pela cabeça de um imigrante na Europa. Quem morou fora, sabe como é isso. 

Um imigrante turco quando está na Alemanha também é assim. Ele não vai virar alemão em um dia. Nem mesmo em uma geração. Demora. Eu sou a segunda geração de libaneses e italianos da minha família no Brasil. Mas sou brasileiro. Meu avô era libanês. Agora, sou eu quem sou estrangeiro em outro país e insisto em ser brasileiro. Não sou americano. Se tiver filhos e netos aqui, eles serão americanos. E acharão aquela camisa verde do Palmeiras um pouco exótica. Talvez, nem falem a língua. Quantos descendentes de italiano ou japonês no Brasil falam a língua dos avós.

Notem que hoje temos uma presidente do Brasil filha de búlgaro que não fala a língua da terra do seu pai. E um vice-presidente filho de libaneses que fala apenas algumas palavras de árabe. Alguns dirão que eles são cristãos, como a maioria dos brasileiros. Mas o Menem era muçulmano e governou a Argentina por dez anos. Imigração é assim. Aos poucos, o kibe, a pizza e o sushi viraram pratos brasileiros – curiosamente, ouvi uma história de um leitor dizendo que dekasseguis brasileiros são os reis da culinária “árabe” em Tóquio.

Obs. Há problemas para publicar comentários hoje e recebi alguns por email. Este, da Carolina Iootty vale a pena ler

“Você esqueceu de mencionar que teriamos sobrenomes africanos nesse brazilian melting pot caso os escravos, também imigrantes, não tivessem sido forçados a adotar nomes portugueses.  O mesmo vale para denominações indígenas, no caso dos muitos índios (esses, sim, nativos) que foram aculturados”

Obs. Escrevi pelo iPad, que faz correções sozinho. Por favor, me avisem se virem erros

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes. Os comentários dos leitores não refletem a opinião do jornalista

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios 

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.