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De Tegucigalpa a Teerã – Sem entender do assunto, brasileiros debatem política externa

gustavochacra

28 de abril de 2010 | 07h42

Política externa se transformou em um assunto importante no Brasil. Até mesmo na campanha eleitoral, Serra, Dilma e  Marina expõem seus pontos de vista sobre o Irã, Venezuela, Estados Unidos e China. No passado, estes temas eram praticamente ausentes do debate político do dia a dia, incluindo durante a última disputa presidencial. Agora, analistas que pouco conhecem de política internacional escrevem sobre questões complexas do Oriente Médio e da América Latina para elogiar ou condenar as posições da administração de Lula.

Três motivos levaram a este crescimento. Em primeiro lugar, o próprio governo brasileiro, tanto na era de Fernando Henrique como na atual, se preocupa em elevar a importância do Brasil no cenário político internacional. A moda dos BRICs seria a segunda contribuição, com o Brasil passando a ser observado mais de perto em outras partes do mundo. Por último, a crise em Honduras e, agora, no Irã, tiveram e têm uma participação ativa dos brasileiros.

Este debate sobre política externa é positivo e nos abre para o mundo. Claro, temos que ouvir besteiras homéricas, já que pessoas com pouca experiência internacional escrevem sobre o assunto. Vemos situações bizarras de criticarem iranianos e israelenses sem jamais terem postos os pés no Oriente Médio e, acreditem, terem conversado com um muçulmano ao vivo. Generalizam “os muçulmanos” e insistem em criticar a religião islâmica, os persas e os árabes (muitas vezes cristãos), além, claro, do tradicional anti-semitismo, existente bem antes de política externa ganhar espaço no Brasil. Ou, como no caso da administração brasileira e da maioria dos órgãos de imprensa, de chamar de golpe a deposição do presidente hondurenho, prevista na Constituição daquele país.

O problema, quando se entra na questão de política internacional, é que as pessoas precisam conhecer o mundo (ou pelo menos estudar profundamente de seu próprio país) e falar línguas para escrever. O Itamaraty erra muito, mas seus profissionais são ultra qualificados, bem mais do que no meio jornalístico brasileiro, onde muitos analistas nunca moraram no exterior e escrevem análises ainda mais equivocadas.

Não sei, honestamente, se os candidatos entendem de política externa. O Serra morou no Chile e nos EUA e tende, pelo menos, a ter mais vivência. Porém nunca foi um fanático pelo assunto, como o FHC, e dificilmente terá a atenção recebida pelo Lula em capitais como Paris, Londres e Washington – goste ou não do presidente, os americanos e europeus, apesar das críticas na questão iraniana, adoram a história de vida do petista e dificilmente saberiam do passado pobre do Serra, que era filho de feirante e chegou à Escola Politécnica.

Independentemente disso, a política externa não definirá a eleição. No Brasil, Israel e Irã não movem paixões, a não ser em uma pequena parte da elite intelectual e econômica. Bem diferente dos EUA, onde estes dois assuntos são tratados como política doméstica, conforme afirma o professor da Columbia, Gary Sick. Serra poderia ser – e certamente seria – mais duro com o regime de Teerã na questão nuclear. Em Honduras, se envolveria menos, mas o PSDB também equivocadamente classificou como golpe o episódio. Em relação a Israel e palestinos, da mesma forma que Lula e toda a opinião pública internacional, defenderia a solução de dois Estados e pediria para os israelenses cessarem os bombardeios de Gaza, em 2009.

Claro, viria com aquele papo, usado por Lula e FHC, de que judeus e árabes se dão bem no Brasil, como se o mesmo não tivesse sido verdade por séculos no Oriente Médio e ainda seja nos Estados Unidos, Argentina, México e Canadá.

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Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão – Ariel Palacios (Buenos Aires), Patricia Campos Mello (Washington), Jamil Chade (Genebra), Claudia Trevisan (Pequim) e Adriana Carranca (pelo mundo)

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