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De Tel Aviv a Ramallah – Fayyad pode ser o Ben Gurion palestino?

gustavochacra

06 de abril de 2010 | 18h48

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Certa vez, o professor de História do Oriente Médio da Universidade Columbia, Rashid Khalidi, afirmou em uma aula que os palestinos não tiveram um Ben Gurion, como os israelenses. Um líder que construísse as instituições necessárias e tomasse as decisões corretas para alcançar o sonho de criar um Estado para o seu povo. Um homem que soubesse ler e entender os interesses das grandes potências e usá-los a seu favor.

Em vez disso, palestinos tiveram o controverso Mufti, que tomava uma decisão equivocada atrás da outra. Yasser Arafat teve seu papel ao divulgar a causa palestina de ter um Estado para o povo árabe residente nas áreas ocupadas por Israel em 1967 e, de uma certa forma, conseguiu o reconhecimento internacional dos palestinos. Hoje, seria impensável que um premiê israelense copiasse a Golda Meir e perguntasse quem são esses palestinos – se é que ela realmente disse isso algum dia. O problema é que Arafat foi um dos piores estadistas que os palestinos poderiam ter. Aliás, se houvesse um campeonato no mundo árabe, ele ficaria em último. Pode até ter sido um bom guerrilheiro, mas era nota zero em administração pública. Seu governo era corrupto e não conseguiu erguer nenhuma instituição de respeito nos territórios palestinos. Para complicar, dizia uma coisa para os EUA e Israel e outra para os árabes. Terminou a sua vida cercado em sua Muqata, no meio da Segunda Intifada, e com o sonho palestino distante.

Mahmoud Abbas, seu sucessor, pode ser bem intencionado. Mas não tem força alguma. Além disso, tampouco dá para classificá-lo como um ás em governança. Porém os palestinos têm hoje um premiê capaz e preparado, admirado não apenas entre seu povo, mas também nos EUA e mesmo em Israel. Salam Fayyad entende a necessidade os palestinos terem instituições prontas antes de lutar pela independência. E é isto que ele tem feito. Hoje, a Cisjordânia se desenvolveu e está bem mais segura do que em 2004, quando morreu Arafat. Os cartazes dos mártires não existem mais. A calma prevaleceu na Guerra de Gaza. A polícia é bem preparada. As ruas organizadas. Ramallah possui até uma emergente vida noturna. Ele ainda apoia protestos pacificos, como plantar arvores em areas sob ocupacao israelense.

No ano que vem ou em 2012, provavelmente, Fayyad irá mais adiante. E tentará buscar o reconhecimento internacional do Estado palestino. Muitos países certamente concordarão, e inclua na lista nações escandinavas, Turquia, todo o mundo árabe e islâmico, entre outros. Barack Obama também simpatiza com Israel. Seus principais interlocutores para o Oriente Médio sabem que Israel não terá tão cedo alguém como Fayyad do outro lado para dialogar.

O problema é que a administração israelense ainda desconfia. E observa Gaza mais do que a Cisjordânia. “Do que adianta um líder bom na Cisjordânia se o Hamas ainda controla a outra parte do território, lançando foguetes contra Ashkelon e Sderot?”, questionam. Agora, cabe aos palestinos mostrar que seus sonhos estão mais em acordo com Fayyad do que com o de líderes como o iraniano Mahmoud Ahmadinejad, conforme escreveu recentemente Thomas Friedman no New York Times. Israel teme um mini-Irã (no sentido do atual regime, não do povo iraniano) nas suas fronteiras. Mas ficariam felizes de ter um Estado pacífico e democrático. Mais ou menos uma “Jordânia”, mas sem um rei absolutista como Abdullah. Enfim, será que Fayyad pode ser o Ben Gurion, o Mandela palestino? Até agora, ele mostrou que sabe tomar decisões acertadas e, acima de tudo, entende o que as grandes potências querem. Pela primeira vez na história, um presidente dos EUA simpatiza mais com um líder palestino do que com um israelense. Hoje, Fayyad é mais bem visto na Casa Branca do que Netanyahu

Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009

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