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De Trípoli a Damasco – Síria em tempo real (com depoimento e apoio americano) e Obama e a Líbia

gustavochacra

29 de março de 2011 | 12h08

no twitter @gugachacra

Atos a favor de Assad impressionam

Não sei se  os atos são pagos ou autênticos. O relato da minha amiga abaixo pode explicar melhor. Mas não ocorreram manifestações a favor do regime das dimensões vistas em Damasco hoje em nenhum dos países com levantes até agora. Bashar al Assad está distante de ser um democrata e, graças ao estado de emergência, reprime a oposição e censura a imprensa. Isso sem falar nas mortes em Daara. Porém é um erro negar a enorme popularidade do líder sírio. O cenário se difere do Egito e da Tunísia.

Ao mesmo tempo, foi irônico ver o embaixador da Síria em Londres dizer que Assad é o presidente mais popular da Síria desde a independência. Em resposta, a apresentadora, Hola Gorani, da CNN, que é filha de sírios, afirmou – “Também não é difícil, nas últimas quatro décadas, foram apenas ele e o pai.

Assad não é mais intocável, mas tem apoio americano

Hoje, segue a cobertura em tempo real da Síria. Bashar al Assad acabou de remover o seu gabinete, seguindo a cartilha de outros líderes, como o rei Abdullah, da Jordânia. Mais tarde, fará um discurso em que deve levantar o estado de emergência e mais reformas. O regime de Damasco, que antes parecia intocável, corre riscos sim de cair. Ainda não acho a maior possibilidade, dado o elevado apoio popular ao presidente como mostram as gigantescas manifestações a seu favor nas principais cidades da Síria.

O líder sírio também conta com respaldo do governo dos EUA, por incrível que possa parecer. A secretária de Estado, Hillary Clinton, afirmou em entrevista no domingo que muitos parlamentares americanos o consideram genuinamente reformista. O presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, John Kerry, é amigo pessoal de Assad. Também influencia o temor israelense de ter um Iraque ou uma Líbia em suas fronteiras, abrindo mais uma frente além do Líbano, Sinai e Gaza.

(Parênteses sobre Obama e a Líbia) – Obama não é diferente de outros líderes

Antes de colocar a segunda parte do depoimento de minha amiga estrangeira que vive em Damasco, quero comentar sobre Barack Obama. Em termos realistas, dá para entender a defesa dele da intervenção dos EUA e seus aliados na Líbia e não em outros países. Mas o líder americano foi hipócrita ao dizer que “algumas nações talvez sejam cegas ao ver atrocidades em outros países. Os EUA são diferentes. Como presidente, eu me recusei a esperar pelas imagens de massacre e covas comuns antes de agir”.

Certo, mas o presidente não agiu na Costa do Marfim, onde há 700 mil refugiados e o governo ilegal também ataca civis, ignora o que se passa no Sudão e no Congo e se calou diante da intervenção saudita em apoio à monarquia de Al Khalifa em Bahrein. Ele poderia ter ficado com a primeira parte do seu discurso, quando diz ser inviável os EUA intervirem em outras áreas.

Agora, vamos à segunda parte do depoimento de uma amiga estrangeira Damasco. O nome dela não é citado por questões de segurança

“Foi no Twitter e no Facebook que sírios e sírias encontraram um espaço. Um espaço relativamente seguro onde elas não precisavam necessariamente usar sua identidade verdadeira (embora a maioria o tenha feito). Onde pouco a pouco as idéias foram surgindo, as pessoas foram se conhecendo (ou se “e-conhecendo”, como dizem). Ali também provavelmente estavam os mukhabarats, mas isso não os impediu de começar um movimento.

E foi assim que sírios e sírias começaram a tomar as ruas. Uma vigília na frente da embaixada do Egito em Damasco, onde algumas dezenas de pessoas compareceram para mostrar sua solidariedade com o que acontecia no país vizinho, foi rapidamente dispersada pela polícia. um protesto em frente ao parlamento convocado por uma comunidade do Facebook para o fim de semana de 4 e 5 de fevereiro nunca aconteceu, provavelmente por conta da forte presença da polícia na área.

Poucos dias depois, quando a polícia espancou um homem por conta de uma infração de trânsito em harika, rapidamente centenas de pessoas se uniram em uma demonstração espontânea, gritando “o povo sírio não será humilhado”. A confusão terminou quando o ministro do interior, em pessoa, veio ao local pedir desculpas. E numa vigília na frente da embaixada da líbia em damasco, em 22 de fevereiro, um par de centena de pessoas gritaram em apoio ao povo líbio “traidores são aqueles que espancam seu próprio povo”. Na verdade, esse era um recado a seus próprios governantes. Essa foi reprimida com violência, e algumas pessoas foram presas (veja esse artigo do The Guardian http://www.guardian.co.uk/world/2011/feb/24/syria-crackdown-protest-arrests-beatings).

Mas foi no dia 15 de março (o dia em que fui despertada por meu amigo) que o povo sírio deslanchou um processo sem volta. era feriado em comemoração ao nascimento do profeta Maomé. Depois das preces do meio-dia, pessoas saíram da mesquita dos Omíadas gritando “Deus, Síria, Liberdade, Somente” (uma adaptação do grito em apoio ao governo “Deus, Síria, Bashar, Somente”) e “paz, paz”. no dia seguinte, pessoas se uniram às famílias de prisioneiros políticos em vigília em frente ao ministério do interior. No dia seguinte, a cidade de Dera’a, no sul da síria, foi palco do maior protesto visto até agora, que se estendeu por toda a semana, ininterruptamente, com milhares de pessoas indo à ruas, e um número delas tendo sido mortas pela polícia (os números variam de acordo com as fontes.)

Protestos em solidariedade a Dera’a foram convocados para ontem (25/03) em todo o país. Na quinta à noite, a porta-voz do governo anunciou em rede pública um pacote de reformas que responderiam às demandas dos manifestantes (o anúncio foi oportuno, possivelmente com o intuito de evitar grandes protestos no dia seguinte, já que os maiores protestos têm acontecido às sextas-feiras, após as preces do meio-dia).

Ela também lamentou as mortes de manifestantes em dera’a, enfatizando que o presidente havia expressamente proibido o uso de força, em quaisquer circunstâncias. assumiu que houve erros, e que as mortes seriam investigadas, mas que era sabido que a polícia somente havia reagido para conter “gangues armadas” e a atuação da “inteligência israelense”.

Hoje  damasco está calma. Se não fosse pela manifestação de ontem (com alguns resquícios hoje) e o bombardeio de notícias que recebo todos os dias de amigos e parentes, eu não diria que algo anormal esteja acontecendo. É bem verdade que eu não vou para áreas onde é sabido que haverá manifestação.

Muita gente pede minha opinião sobre o que vai acontecer. Acho difícil prever (os maiores especialistas em oriente médio não puderam prever o que já aconteceu, quem sou eu para fazê-lo?) mas sinto que, por um lado, os manifestantes contra o governo continuarão nas ruas até que o presidente caia, se cair. Agora que a “barreira do medo” foi cruzada, não vão parar. Estão impacientes. No entanto, comentem um erro ao recusar-se a reconhecer que o presidente conta com o apoio de uma grande parte da população (ao contrário da túnisia, egito e líbia). Dizem que seus partidários foram pagos para apoiá-lo.

Por outro lado, os partidários do governo agora também estão nas ruas, e contam com a liberdade de poder fazê-lo (ao contrário dos opositores). Estão satisfeitos com o pacote de reformas oferecido pelo governo e não vêem razão para que protestos continuem. Estão indignados com a imparcialidade da mídia internacional (embora não digam nada sobre a mídia nacional, que é totalmente controlada pelo estado), acusando-a de golpe para desestabilizar o país e a região. acho que o maior risco atualmente é a polarização da sociedade síria, e que a violência já não se dê desde o estado, mas entre cidadãos.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios


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