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De Washington a Brasília – Lula era amigo de Bush; FHC, de Clinton. E Dilma e Obama?

gustavochacra

01 de novembro de 2010 | 09h49

Não dá para dizer ainda como será a relação entre Barack Obama e Dilma Rousseff, eleita ontem presidente do Brasil. Tudo dependerá da química entre os dois e não necessariamente de concordâncias no campo político. Segundo Michael Shifter, presidente do Inter-American Dialogue, “todas as previsões sobre as relações entre presidentes brasileiros e americanos nos últimos tempos foram equivocadas. Lula e (George W.) Bush eram amigos. Já Lula e Obama não possuem uma relação tão amistosa”.

Para o professor da Universidade de Georgetown, considerado um dos maiores especialistas em América Latina dos EUA, um dos principais pontos de tensão entre os dois países continua sendo a questão nuclear iraniana. O candidato do PSDB, José Serra, de acordo com o analista, teria uma posição mais próxima à dos americanos. A seguir, leia trechos da entrevista.

Estado – O que a administração de Barack Obama acha da vitória de Dilma?

Michael Shifter – Eles já trabalham há algum tempo com a possibilidade vitória dela. Não há surpresa. Sabem que não desfruta do carisma de Lula, mas que é uma administradora eficiente. E, independentemente de quem vencesse a eleição, os EUA possuem confiança na estabilidade do Brasil, conforme afirmou Thomas Shannon (embaixador dos EUA em Brasília). Tanto ela quanto Serra não causam ansiedade em Washington.

Estado – Mas existem diferenças na visão dos dois países em questões de política externa.

Shifter – Verdade, e o Irã certamente é um ponto de tensão. Serra seria mais próximo da posição americana em relação à questão nuclear iraniana, certamente o mais importante tópico de política internacional hoje. Os dois países também possuem disputas comerciais e divergem sobre as mudanças climáticas. Na América Latina, houve diferenças durante a crise hondurenha. O Brasil também discorda das sanções americanas a Cuba.

Estado – Antonio Patriota, atual secretário-geral do Itamaraty e ex-embaixador em Washington, está cotado para assumir o Ministério das Relações Exteriores. Seria um bom nome na avaliação americana?

Shifter – Patriota conhece bem os EUA por ter sido o embaixador em Washington e tem um bom diálogo com o governo de Obama. Certamente seria um bom nome por não ser uma figura desconhecida.

Estado – Como deve ser a relação entre Dilma e Obama?

Shifter – Todas as previsões sobre as relações entre presidentes brasileiros e americanos nos últimos tempos foram equivocadas. Lula e Bush eram amigos, diferentemente do que muitos previam devido ao passado dos dois líderes. Já Lula e Obama não possuem uma relação tão amistosa, apesar de muitos imaginarem o oposto.  Logo, a relação entre Obama e Dilma dependerá muito da química entre os dois.

Estado – A América do Sul tem três novos presidentes – Juan Manuel Santos (Colômbia), Sebastian Piñera (Chile) e Dilma. Dois de centro-direita e nenhum da esquerda chavista.  Para que lado está pendendo a região atualmente?

Shifter – Na verdade, a América Latina deu uma guinada para o centro. Segundo pesquisa do Latinbarometro, cresce o número de habitantes da região que se identificam como centristas, enquanto diminuem os que se descrevem como esquerdistas e direitistas. Além disso, com a exceção de Hugo Chávez (Venezuela) e Evo Morales (Bolívia), não dá mais para rotular os políticos como direita ou esquerda. O atual presidente da Colômbia poderia até ser chamado de centro-esquerda. O que a população quer, na minha opinião, é um presidente que mostre resultados, sendo pragmático. Dilma pode garantir a continuação da administração Lula, que é bem avaliada pela população.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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