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De Washington a Brasília – No Brasil, não há conservadores e liberais, como nos EUA

gustavochacra

27 de abril de 2010 | 09h23

O Wall Street Journal e o New York Times estão em guerra. Assim como o Comedy Central e a Fox News. O mesmo vale para democratas e republicanos. Nos EUA, ou você é conservador (direita) ou liberal (esquerda, no sentido americano). E os dois lados migram cada vez mais para os extremos. Mesmo legislações com amplo apoio da população, como a reforma do sistema financeiro, enfrentam dezenas de obstáculos e negociações para serem aprovadas. Raramente um republicano vota com os democratas e vice-versa.

Americanos tendem a ter uma posição sobre tudo. O que é admirável. Nos papers nas escolas e universidades, os alunos são treinados a terem um ponto de vista. Bem diferente das redações da FUVEST no Brasil, onde o estudante faz uma introdução, coloca um pouco dos dois lados, e conclui. Ao chegar à vida adulta, depois da universidade, o cidadão dos EUA poderá ser contra ou a favor de uma presença maior do governo na economia; poderá defender ou rejeitar a legalização das drogas, o direito ao aborto ou ao casamento de homossexuais; achará que os imigrantes ilegais devam ter direitos ou sejam tratados como criminosos. Enfim, em tudo, os americanos precisam ter uma opinião.

Estas diferenças se refletem na hora de votar reformas, como a do sistema de saúde, financeira, energética e de imigração. Ou mesmo quando cidadão coloca o voto na urna, muda seu canal de TV, assina o seu jornal. O presidente também vê como pensam juristas quando escolhe um juiz da Suprema Corte – Obama escolherá liberais; Bush indicava conservadores. A dificuldade, porém, é que os republicanos são a favor de menos impostos e, ao mesmo tempo, querem endurecer no combate à imigração, como vimos no caso do Arizona. Também, em sua maioria, rejeitam o aborto ou casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Logo, cidadãos que são conservadores na economia e liberais em questões sociais, ficam perdidos no meio de campo. De um lado, ele pode optar pelo lado social, votando nos democratas a aceitando um governo mais presente na economia – sem esquecer que Bush reduziu os impostos, mas aumentou os gastos estatais. Este americano pode, também, abdicar de seus valores sociais para defender o pagamento de menos impostos.

No Brasil, por mais que insistam em me mostrar diferenças, não consigo ver Dilma e Serra tão distintos em questões fundamentais. Na economia, os governos de Lula e Fernando Henrique foram semelhantes, com o petista seguindo a receita do seu antecessor – aliás, Serra criticava muito o Arminio Fraga e o Pedro Malan, que salvaram a nossa economia. Em temas sociais, também se diferem muito pouco, pelo menos até onde eu sei. Apesar da polarização da campanha, as divisões entre o PT e o PSDB não podem ser comparadas às de democratas e republicanos. Aliás, nos EUA, Serra e Dilma seriam considerados de extrema esquerda, bem além de Obama.

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Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão – Ariel Palacios (Buenos Aires), Patricia Campos Mello (Washington), Jamil Chade (Genebra), Claudia Trevisan (Pequim) e Adriana Carranca (pelo mundo)

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