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De Washington a Riad – Os EUA vendem armas para a Arábia Saudita. Realismo ou hipocrisia?

gustavochacra

19 de setembro de 2010 | 09h13

A Arábia Saudita não tem democracia. Ninguém vota para presidente. Uma monarquia absolutista composta por dezenas de príncipes reina em um absolutismo de dar inveja a Luís 16. A oposição não é reprimida porque passou a ser praticamente inexistente. Pior, os opositores são ainda mais conservadores do que o regime mais repressor do mundo. Mulheres sequer podem dirigir, além de serem proibidas de andar ao lado de homens que não sejam da família.

Dos 19 terroristas do 11 de Setembro, 15 eram sauditas. Riad também era na época um dos únicos governos do mundo a reconhecer o regime do Taleban no Afeganistão. A família Saud sempre patrocinou a difusão da vertente wahabbita do islamismo sunita pelo mundo. Através do cartel da Opep, a Arábia Saudita contribuiu para colapsos econômicos ao redor do mundo ao controlar o preço do petróleo.

Apenas para se ter uma idéia do conservadorismo saudita, não dá para citar uma mulher nascida no país que seja um expoente internacional. Mesmo o Irã, onde desde 1979 impera um regime extremista, vemos Shirin Ebadi, Nobel da Paz, jornalistas e cineastas. Minorias religiosas, como os xiitas, são tratados como subclasse na Arábia Saudita. O Irã reprime os Ba’hai, mas cristãos e judeus vivem com relativa liberdade.

Apesar de todo este histórico da monarquia árabe, os EUA concluíram um de seus maiores acordos de venda de armas em toda a história justamente para os sauditas. Serão US$ 60 bilhões ao todo. Basicamente, os americanos estão armando o regime mais extremista do mundo, onde direitos mínimos das mulheres e dos cidadãos como um todo são desrespeitados. Onde, apesar do capitalismo, valores americanos como a liberdade são completamente ignorados.

Obviamente, este episódio deixa claro que os EUA se movem por uma estratégia realista nas relações internacionais. Os americanos, com razão, agem de acordo com os interesses de seu próprio país. Hoje, para a administração Obama, o Irã é a maior ameaça por 1) patrocinar o Hezbollah, um grupo considerado terrorista pelo Departamento de Estado, no Líbano 2) Tentar sabotar o processo de paz entre israelenses e palestinos 3) Dar apoio ao Hamas, também tido como terrorista pelos EUA 4) Patrocinar o sectarismo no Iraque 5) Estar, segundo os EUA se seus aliados, tentando desenvolver armas nucleares

A Arábia Saudita, com seus imensos defeitos internos, tenta mediar acordos no Líbano, voltou a se aproximar da Síria, defende uma solução para a crise entre palestinos e israelenses, não ameaça Israel, não quer armas atômicas e tampouco interfere nos interesses americanos no Iraque. Mais importante, é um ator capitalista, sendo também o principal e fiel fornecedor de petróleo dos EUA.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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