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De Washington e Jerusalém – O manual da crise Israel x EUA

gustavochacra

17 de março de 2010 | 11h23

Os Estados Unidos estão irritados com Israel. Não é a primeira vez neste governo e tampouco na história americana. Na Guerra de Suez, em 1956, os EUA se posicionaram a favor do Egito e contra seus aliados franceses, ingleses e israelenses. George Bush (o pai) e Bill Clinton também divergiram de Israel ao longo de seus mandatos, apesar de a aliança entre os dois países nunca ter sido colocada em cheque – e tampouco está agora.

O conflito atual envolve a construção de 1.600 novas unidades residenciais em um assentamento em Jerusalém Oriental. Esta parte da cidade é reivindicada pelos palestinos como capital de um futuro Estado. Muçulmanos em sua maioria, mas também incluindo uma minoria cristã, eles defendem o caráter palestino da cidade por questões demográficas e também históricas e religiosas. Já Israel considera Jerusalém sua capital eterna e indivisível também por razões históricas e religiosas.

Balança Demográfica – A construção dos assentamentos visa alterar a balança demográfica, elevando o número de judeus na parte oriental, e também para isolar a cidade do restante da Cisjordânia. Os EUA e a comunidade internacional consideram esta ação um obstáculo para as negociações de paz. Os americanos nunca disseram oficialmente que consideram a área oriental como palestina. Apenas deixam claro que, até ser encontrada uma solução negociada, deveria haver um congelamento na expansão das colônias. Enquanto isso, mantêm a sua Embaixada em Tel Aviv.

A briga – Na semana passada, quando as relações entre Israel e EUA já não eram boas, Joe Biden, na avaliação da administração americana, foi humilhado durante visita a Jerusalém. O vice-presidente, que é uma das figuras mais próximas de Israel em Washington, buscava relançar o processo de paz. Em vez disso, recebeu a notícia de que Israel construiria as novas unidades residenciais. Os americanos reagiram e a secretária de Estado, Hillary Clinton, demandou que Netanyahu voltasse atrás nos planos. O premiê se recusou. O enviado especial dos EUA, George Mitchell, não retornará à região até Israel mudar sua postura – ou, eu diria, até a poeira baixar. De qualquer forma, o tom assustou inclusive o presidente Lula, que teve a sua viagem ofuscada pela crise envolvendo Washington e Jerusalém.

Divisões – Nos EUA, há divisões. De um lado, o liberal New York Times (isso mesmo que vocês leram) defende Obama. O governo também conta com o apoio de entidades judaicas liberais, como a J-Street. O conservador lobby pró-Israel AIPAC e o Wall Street Journal consideraram desnecessária a reação do governo americano. Obama, em relação ao Oriente Médio, escuta três pessoas. Mitchell, o seu chefe de gabinete, Rahm Emmanuel, e seu assessor, David Axelrod. Os dois últimos são judeus. Emmanuel viveu em Israel e fala hebraico fluentemente. Muitos podem achar que este histórico o colocaria sempre a favor da administração israelense. O problema é que o chefe de gabinete de Obama diverge de Netanyahu por questões pessoais e ideológicas. Os dois se odeiam e Emmanuel possui uma ideologia política liberal, próxima da J-Street, do New York Times e dos judeus do Upper West Side. Netanyahu simpatiza mais com os republicanos, com os judeus conservadores e o Wall Street Journal.

Aliança – Afinal, Israel é como qualquer país. Muitos leitores não concordam com Lula e mesmo assim amam e defendem o Brasil. O mesmo ocorre com Israel. Criticar as políticas de Bibi não é ser contra o Estado judaico, mas contra a administração atual. Assim age Obama. Para completar, os EUA parecem finalmente ter aprendido a lição de John Mearsheimer, de Chicago, e Stephen Walt, de Harvard, autores do livro “O lobby de Israel”. Na visão deles, as relações dos americanos com os israelenses deveriam ser a mesma existente entre os EUA e a Inglaterra ou os EUA e a Alemanha. São aliados, mas podem divergir. Não precisam concordar sempre. E é isso que ocorre atualmente. A aliança dos EUA e de Israel é muito profunda e necessária para os dois países. Não fossem os americanos, Israel talvez não existisse. E, se não fosse pelos judeus, Nova York não seria a capital financeira do mundo e os EUA teriam bem menos Nobel do que possuem.

O Lula no Oriente Médio fica para o próximo post.

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