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Obama ignora declaração racista de McCain sobre árabes

gustavochacra

16 de outubro de 2008 | 10h08

“Basta”, escreveu James Zogby, presidente da Associação Árabe-Americana e um dos donos da agência de pesquisas Zogby. Em comunicado divulgado para a imprensa, ele, que é filho de libaneses, diz que chegou o momento de acabar com o preconceito absurdo que árabes e muçulmanos vêm sofrendo na atual eleição americana. O ápice foi quando, nesta semana, uma eleitora perguntou ao candidato republicano John McCain se Obama era mesmo um “árabe”. McCain respondeu: “Não, senhora. Ele é um decente homem de família e cidadão”.

Isso significa dizer que, ser árabe, para McCain, implica não ser homem de família e cidadão, conforme notou Jon Stewart, que apresenta diariamente o programa “Daily Show”, que mistura jornalismo e comédia e é exibido em todo o mundo pela CNN – nos EUA, passa no Comedy Central.

A declaração de McCain equivale a dizer que os cerca de 8 milhões de brasileiros que descendem de sírios e libaneses não são homens de família decentes.

Imaginem se questionassem McCain se Obama era mesmo negro e ele respondesse “não, senhora. Ele é um decente homem de família e cidadão”. Ou se lhe perguntassem se Obama era mesmo judeu e ele respondesse “não, senhora. Ele é um decente homem de família e cidadão”. Seria, com enorme razão, chamado de anti-semita e de racista. Provavelmente, a uma altura dessas, já teria abdicado da sua candidatura e sua carreira política terminaria no ostracismo. Como falou dos árabes, parece normal. Não é. A declaração de McCain foi racista e anti-árabe.

O episódio é apenas o último de milhares de atitudes islamofóbicas e anti-árabe desta eleição. Por exemplo, quando escrevem que “Obama é acusado de ser muçulmano”. Acusação significa crime. Ser muçulmano não é crime, apenas uma opção religiosa. O correto seria escrever que “dizem que Obama é muçulmano”.

Obama também tem culpa. Há muito tempo ele deveria ter parado de apenas negar que é muçulmano e ter tido a ombridade de dizer. “E se eu fosse, seria impedido de ser presidente?”. “Ser muçulmano ou árabe por acaso é ser inferior?”. Mas Obama não é corajoso. Como muitos eleitores são islamofóbicos ou , por ignorância, associam islã ao terrorismo, o candidato democrata teme ser prejudicado na votação de novembro. Não fez aquele discurso bonitinho quando comentou sobre a sua raça. Teve vergonha do seu pastor cristão e tem vergonha da religião de seu pai e de toda a sua família que vive no Quênia – todos muçulmanos.

Qualquer cidadão americano nato (ou filho de militares ou diplomatas a serviço do governo no exterior, como é o caso de McCain, nascido no Panamá) tem o direito de ser presidente dos Estados Unidos. Judeus, muçulmanos, budistas, cientologistas, mormons e cristãos têm o direito de assumir a Casa Branca. O pai de Obama não poderia ser presidente por ser queniano, não por ser muçulmano.

A islamofobia e o anti-arabismo crescem não apenas nos Estados Unidos, mas também na Europa e mesmo no Brasil. É grave e temos que tomar cuidado para que os muçulmanos, em algum tempo, não passem a ser tratados como os judeus foram na Europa no século passado.

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