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Diário de Beirute – A perseguição aos cristãos árabes no Oriente Médio

gustavochacra

19 de dezembro de 2010 | 22h56

Os cristãos árabes vivem uma crise demográfica. Dos montes do Líbano, com a Nossa Senhora Harissa, padroeira dos libaneses, aos caldeus iraquianos, passando pela Igreja do Santo Sepulcro em Jerusalém, o cristianismo oriental enfrenta uma das maiores adversidades de sua história, com perseguições em Bagdá e no Cairo e emigração em massa em Beirute, nos territórios palestinos e Israel.

Na capital do Iraque, a catedral da Nossa Senhora da Salvação era o coração dos cristãos caldeus iraquianos, residentes neste país há mais de um milênio. Em novembro, um atentado terrorista matou 51 pessoas dentro deste templo religioso, em um sinal de que os cristãos não vivem mais em paz no Iraque. Como em quase todo o restante do Oriente Médio, eles correm o risco de desaparecer justamente na região onde o cristianismo começou, com o nascimento de Jesus em Belém, segundo a tradição.

Nos tempos de Saddam Hussein, que tinha o cristão Tariq Aziz como seu número dois, os caldeus eram protegidos, segundo eles próprios me disseram em entrevistas. Com os ataques dos últimos meses, centenas de milhares passaram a imigrar para os países vizinhos. Os cristãos egípcios, que por décadas conviveram bem com os muçulmanos, passaram entrar em conflito nos últimos anos no Cairo e em Alexandria. Em Israel e nos territórios palestinos, os cristãos são cada vez mais minoritários e buscam o refúgio e melhores condições econômicas em outras terras, como os Estados Unidos.

Mesmo no Líbano, onde por lei o presidente e metade do Parlamento precisam ser cristãos, a situação se deteriorou. No passado, eles comandavam o país, que ainda segue o calendário cristão, com feriados aos sábados e domingo – os outros países árabes têm a sexta como o dia do descanso, enquanto em Israel é no sábado. Nos últimos tempos, os cristãos libaneses vivem divididos e observando como coadjuvantes as disputas entre os xiitas do Hezbollah e os sunitas que seguem o premiê Saad Hariri. A população, antes majoritária, hoje fica entre um terço e 40%, segundo estimativas. Talvez apenas na Síria ainda não existam tantos problemas. O líder sírio, Bashar al Assad, mantém boas relações com os cristãos que ainda habitam áreas como o bairro de Bab Touma na cidade velha de Damasco.

Iraquianos – O ocaso dos cristãos no Oriente Médio pode ser facilmente presenciado em uma visita à catedral dos caldeus na parte oriental de Beirute, majoritariamente cristã. Todos os dias, jovens iraquianos cristãos vão em busca do bispo Michel Kassarj para conseguir ajuda. Vindos de Bagdá e de Mossul, eles querem um emprego e refúgio das perseguições que sofrem no Iraque. A opção pelo Líbano se deve justamente ao país ainda ser um dos bastiões do cristianismo.

“Não dava mais para ficar em Bagdá. Meu irmão foi morto em um carro-bomba há duas semanas”, diz Shaker Tariq, que começa a chorar na entrevista concedida na catedral caldeia de Beirute. “Meu pai é taxista, mas não tem como sair mais à rua. Se pendurar o crucifixo no espelho, como costumava fazer, pode ser morto. Agora, fica em casa com a minha mãe e minhas quatro irmãs. Vim para o Líbano trabalhar e tentar conseguir asilo nos Estados Unidos”.

Seu amigo Samer Yakoub está ao lado. Os dois são estudantes universitários de contabilidade. Diferentemente dos cristãos libaneses, que costumam ser fluentes em francês e inglês, enfrentam a barreira da língua para conseguir uma recolocação no exterior. Além disso, ninguém os ajuda. “Os Estados Unidos não nos protegem. Na verdade, não estão nem aí para nós cristãos iraquianos, sem nos oferecer asilo”, diz Samer, que já foi sequestrado.

Raed Youran é mais velho. Tem 40 anos e trabalha como “engenheiro ou jornalista”. “Eles ameaçaram me seqüestrar”, afirma. O Estado pergunta quem. Esta dúvida afeta todos os cristãos do Iraque. Eles não sabem se radicais xiitas, apoiados pelo Irã, ou radicais sunitas, que integram a Al Qaeda. “Só sei que nos tempos de Saddam Hussein vivíamos com muito mais segurança. Ele protegia os cristãos”, acrescentou, repetindo o mesmo discurso dos outros iraquianos.

Aproveitando a presença de um jornalista brasileiro, o bispo caldeu Michel Kassarjn pede ajuda. “Vocês no Brasil, que talvez seja o país com mais cristãos árabes no mundo, precisam nos ajudar. O cristianismo no Iraque está desaparecendo. Estamos lá há séculos”, afirma, enquanto traz uma série de papéis com dados sobre os cristãos caldeus. “Eram dois milhões de cristãos no Iraque, hoje são 600 mil. Todos estão partindo”, diz o bispo, pedindo para que o repórter peça doações aos cristãos árabes brasileiros.

Hoje, o Brasil é o segundo país com maior número de cristãos de origem árabe no mundo, depois do Egito – proporcionalmente, o Líbano é o que tem mais. Mas a maior parte dos cristãos árabes brasileiros já está na segunda geração e mantém pouca relação com os países de seus antepassados, em sua maioria provenientes do que hoje é a Síria e o Líbano.

Palestinos e libaneses – Jihan Abdallah, uma palestina cristã de 24 anos, sabe bem o que é a vida de um cristão tanto em Israel como na Cisjordânia. Moradora da parte árabe de Jerusalém, assim como os demais palestinos cristãos, se sente bem mais próxima dos muçulmanos do que dos judeus. “Nós cristãos nos sentimos isolados.Por um lado, somos árabes, orgulhosos de sermos palestinos e nunca quisemos estar separados dos muçulmanos. Falamos a mesma língua, comemos a mesma comida. Ao mesmo tempo, alguns cristãos se acham mais próximos do Ocidente pela forma de se vestir e também pela maneira como tratam as mulheres”, afirma. Apesar de no exterior dizerem haver perseguições contra cristãos, os palestinos discordam. Afirmam que imigram por questões econômicas. Ainda “há o problema de perder o direito de viver em Jerusalém se ficarmos longe por muito tempo”, afirma.

Em Beirute, o líder do Hezbollah, xeque Hassan Nasrallahm nesta semana, fez um dos discursos mais duros contra os cristãos libaneses. “Alguns cristãos pensam que um conflito entre sunitas e xiitas no Líbano os colocará em uma posição privilegiada, mas eles estão errados”, afirmou. A resposta veio de Samir Gaegea, líder do grupo cristão Forças Libanesas e morador da vila de Bsharri, na região dos cedros, onde imagens de Nossa Senhora são colocadas nas portas das casas. “Nós cristãos libaneses não precisamos de nada, a não ser de liberdade. Isso nos distingue dos outros países da região”, afirmou.

Obs – Adaptado de reportagem minha publicado na edição impressa do Estadão neste domingo

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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