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Diário de Beirute – A história da ponte libanesa destruída na guerra do Hezbollah contra Israel

gustavochacra

06 de dezembro de 2010 | 06h29

Na guerra de 2006, Israel não bombardeou apenas o Hezbollah. Diversas áreas do Líbano foram atacadas pela força aérea israelense. Até um ministro da Defesa libanês disse a autoridades americanas, segundo documentos vazados pelo Wikileaks, que Israel perdeu apoio interno em Beirute ao alvejar infra-estrutura de regiões majoritariamente cristãs, sunitas e sem ligações com a organização xiita. A guerra não foi contra o Hezbollah, mas contra todo o Líbano.

Um dos alvos mais inúteis que Israel bombardeou na guerra foi uma ponte gigantesca na estrada Beirute-Damasco. Caríssima e sobre os Montes do Líbano, ela, segundo os israelenses, seria usada para levar armas para o Hezbollah. Ainda que fosse, não mudou nada destruí-la. Em vez de cruzar a ponte, os carros precisavam desviar por um caminho alternativo 15 minutos mais longo. E o arsenal seria levado ao Hezbollah novamente se necessário. Afinal, a organização está mais bem armada hoje do que há quatro anos. A guerra foi inócua.

No fundo, o bombardeio da ponte serviu apenas para atrasar as viagens dos libaneses de Beirute ao Vale do Beqa por alguns anos. Ontem, cruzei a ponte, reconstruída. Tudo voltou ao normal. O Líbano está mais uma vez de pé. De Dahieh, bairro do Hezbollah, aos bares de Gemeizah, Beirute vive um boom turístico. E todos ironizam que, por mais que Israel os tente destruir, o Líbano consegue se reerguer. Mesmo as áreas xiitas da capital libanesa, arrasadas no ataques, estão renovadas e com hotéis e restaurantes como o Saha.

O shopping ABC estava lotado com o seu presépio de Natal. Os sanduíches de coalhada com azeitona estavam à venda nos mercados de laticínios de Shtoura. Noivos e noivas celebravam seus casamentos na armênia Anjar e na grego-católica Zahle. Em um bar de Beirute, a garçonete esnobava ao falar inglês, francês, árabe e espanhol. Diante da Universidade Americana, jovens organizam um festival de arte em homenagem à imigração.

As divisões continuam. Não é, como gostam de dizer alguns, uma disputa entre cristãos e muçulmanos. Como escrevi aqui diversas vezes, o Líbano se divide entre os sunitas e algumas facções cristãs radicais de um lado, com o apoio dos sauditas e dos Estados Unidos. Do outro, estão os cristãos populistas aliados aos xiitas do Hezbollah e da Amal, com o patrocínio do Irã. Os druzos, de Walid Jumblatt, e a Síria navegam entre os dois lados de acordo com os seus interesses.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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