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Diário de Beirute – O risco de uma nova guerra civil ameaça a boa vida dos libaneses

gustavochacra

12 de dezembro de 2010 | 09h27

Começo a publicar hoje uma série de reportagens especiais sobre o Líbano e o Hezbollah aqui no blog. O texto abaixo está baseado na minha matéria publicada hoje na edição impressa do Estadão. Nos últimos dias, não escrevi no blog justamente para terminar estes artigos

A possibilidade de uma nova guerra civil ou contra Israel  assombra Beirute, que tenta renascer como ponte do Ocidente para o Oriente. A paz ainda prevalece. O suq (mercado) no centro da capital do Líbano foi reaberto com lojas como a Fendi, a Zara e a Cartier. A destruição dos 15 anos de guerra civil, encerrada há duas décadas, se tornou uma imagem do passado, de livros de fotos que mostram o “antes” e o “depois”.  No sul, também arrasado em uma guerra mais recente, em 2006, a vila de Bint Jbeil simboliza a reconstrução e o poderio do Hezbollah depois dos bombardeios israelenses.

Quem não acompanha de perto a política do Líbano pode  até ser seduzido pela sociedade liberal que lota bares na região estudantil de Hamra, próxima à Universidade Americana de Beirute, ou na mais seleta  e boêmia Gemeizah. Em vez de conflitos religiosos, árvores de Natal enfeitam não apenas as áreas cristãs, mas também as muçulmanas da cidade. O problema é que este cenário da boa vida libanesa  corre o risco de desaparecer mais uma vez neste país Mediterrâneo que já chegou a ser chamado de Suíça do Oriente Medi. E os libaneses parecem saber disso.

“Os sunitas e os xiitas vão lutar entre si, tenha certeza. Teremos uma nova guerra civil”, afirma o empresário Samir Khater na área cristã de Ashrafyeh. “No Líbano, sempre acaba em guerra. Quase teve em 2007, será difícil não haver agora”, diz o também cristão Joseph Khoury.  Este pessimismo se deve à entrega, nos próximos dias, do resultado das investigações do promotor Daniel Bellemare, responsável pelo Tribunal Especial da ONU para investigar o atentado que matou o premiê Rafik Hariri em fevereiro de 2005 – na época, ele havia deixado o cargo liderava a oposição contra a ocupação síria.

Tribunal

O tribunal pode levar o Líbano de volta para a sua outra realidade, a da guerra e das mortes, bem distante da imagem de melhor vida noturna do mundo árabe, segundo escolha do New York Times. De acordo com especulações que circulam em Beirute e também na imprensa internacional, membros do Hezbollah devem ser formalmente indiciados pelo atentado que matou Hariri. O próprio líder da organização, xeque Hassan Nasrallah, afirma que a ONU irá acusar o grupo. Para evitar acirramento das tensões, os nomes serão mantidos em sigilo depois da entrega da investigação de Bellemare.  O juiz Daniel Fransen terá entre seis e dez semanas para tomar uma decisão, incluindo a prisão ou não dos acusados.

O Hezbollah rejeita o tribunal, dizendo que tudo foi montado pelos Estados Unidos para proteger Israel, que, segundo a organização, seria o verdadeiro responsável. Em agosto, Nasrallah chegou a exibir um vídeo com supostas provas do envolvimento israelense. Mohammad Raad, principal parlamentar do Hezbollah, que também é um partido político, acrescenta que “o mecanismo pelo qual o tribunal foi imposto transcende o governo e a Constituição libanesa”.

No outro extremo, o jovem premiê do Líbano, Saad Hariri, filho da vítima, afirma que aceitará a decisão do tribunal. Caso ele decida levar adiante a ordem de prisão dos acusados pelo assassinato de seu pai, o Líbano ficaria mais uma vez rachado. De um lado, os sunitas seguidores do primeiro-ministro e algumas facções cristãs, como a do líder da guerra civil, Samir Gaegea. Do outro, estariam os xiitas do Hezbollah e da Amal e seus aliados cristãos comandados pelo populista Michel Aoun. O fiel da balança seria mais uma vez o druzo e espécie de líder feudal, Walid Jumblatt, que navega entre as duas coalizões.

Hezbollah e o governo

“Nós não queremos guerra aqui no Líbano. Apenas exigimos que não aceitem a decisão deste tribunal. Não temos nada contra os sunitas. O Hezbollah serve para resistir à agressão israelense, não para tomar o poder no Líbano”, disse um membro do grupo que pediu para se identificar como Mustafá Nasser em um restaurante de Dahieh, uma área controlada pelo Hezbollah ao sul de Beirute. Para trabalhar nesta região, onde até os guardas de trânsito integram a organização xiita, precisei de uma autorização do Hezbollah Media Relations.

No governo, também parece haver uma tentativa de evitar um confronto. Uma pessoa próxima ao premiê afirmou que ninguém “quer conflito no Líbano agora, todos perderiam”. Saad Hariri tem se esforçado para encontrar uma saída para o impasse. No mês passado, chegou a ir a Teerã para conversar com autoridades iranianas, que são os principais patrocinadores do Hezbollah do Líbano. Ele também tem mantido contato direto com a organização libanesa. Até mesmo um conhecido outdoor no centro de Beirute, que desde 2005 contava os dias para que os responsáveis pela morte de Hariri fossem presos, teve seu placar retirado. Com bilhões investidos no centro da capital, Saad Hariri também perderia financeiramente com um conflito.

Mais um mártir

Analistas adotam visões distintas sobre o que pode ocorrer. Reva Bhalla, analista de Oriente Médio da agência de risco político Stratfor, diz o tribunal não deve produzir uma crise. “Todos os lados devem transformar este tema que tem um peso político forte hoje em algo de menor importância (no futuro). Negociações entre sírios, europeus, sauditas, iranianos e turcos têm um ponto em comum – todos querem reduzir o impacto do tribunal”, afirmou em entrevista ao Estado.

Hani Sabra, que cobre Líbano para a Eurasia, avalia de uma forma diferente. “O tribunal tem enorme potencial para desestabilizar os elementos da política libanesa. Se o promotor indiciar membros do Hezbollah, pode haver sérias conseqüências para o Líbano. A Arábia Saudita e a Síria – primeira suspeita pelo atentado no passado – talvez tenham que intervir para garantir que a violência não seja prolongada. Também é bem possível que o governo libanês seja derrubado porque o Hezbollah e seus aliados podem se retirar (do gabinete), levando a uma paralisia política”, diz.

Apesar de rivais, o grupo de Hariri e o Hezbollah integram um governo de união nacional. A liderança é do seu agrupamento político do premiê, conhecido como 14 de Março – a organização xiita e seus aliados compõem a 8 de Março. No complicado e sectário sistema político libanês, o presidente sempre é cristão maronita (Michel Suleiman, que tem uma postura neutra); o primeiro-ministro, sunita; e o presidente do Parlamento, xiita – o Hezbollah abre mão do posto para Nabi Berri, da Amal. O Parlamento se divide ao meio. Metade para todas as denominações cristãs, e metade para os muçulmanos e druzos. Caso os xiitas se retirem do governo, a administração ficaria praticamente travada, como ocorreu entre 2006 e 2008.

No meio de toda esta crise política, uma escultura foi erguida no local do atentado que matou Hariri, próximo à marina de Beirute. Do lado, ainda estão as ruínas do Hotel San George, destruído na guerra civil. Não muito distante dali, está o túmulo do premiê, no centro de Beirute, entre a gigantesca mesquita construída por ele, uma igreja e o badalado hotel Le Gray. O endereço oficial é Praça dos Mártires. Rafik Hariri seria apenas mais um deles ao longo de séculos de violência no país dos cedros. E, como quase todos os outros, talvez nunca saibamos quem são os responsáveis. Enquanto isso, os libaneses vivem em um sonho da boa vida, que a qualquer momento pode virar o pesadelo da guerra.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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