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Diário de Beirute – Uma viagem pelas terras do Hezbollah, na fronteira do Líbano com Israel

gustavochacra

14 de dezembro de 2010 | 00h49

A cerca de três ou quatro metros da fronteira com Israel, há uma estrada libanesa com bandeiras do Hezbollah, da aliada Amal, algumas do Líbano, e mesmo da Palestina e do Irã. Nestes dias de dezembro, também foram colocadas algumas pretas, para celebrar a Ashura, principal festividade xiita. Pôsteres de membros da organização mortos em ação, do xeque Hassan Nasrallah e até do aiatolá Khomeini compõem o restante da paisagem.

Os soldados das forças de paz da ONU observam se algum dos lados viola as resoluções das Nações Unidas. Em um dos pontos, estavam posicionados indonésios que parecem completamente fora de lugar no meio do Oriente Médio. Animados, concordam até em posar para fotos.

As vilas de Kyriat Shmona e de Metula, constantes alvos de mísseis do Hezbollah no passado, podem ser avistadas com seus telhados vermelhos. Também é possível enxergar um agricultor pilotando um trator em uma fazenda israelense.  O portão de Fátima simboliza a proximidade geográfica dos dois países. Os soldados israelenses ficam escondidos em uma espécie de trincheira. Os libaneses estão a poucos metros de distância. Depois da retirada em 2000, se tornou uma espécie de ritual para moradores do lado libanês atirar pedras em Israel. Ironicamente, o sinal do celular é da operadora israelense.

Os libaneses da região parecem levar a vida normalmente. Há casas grandes, de xiitas que ganharam dinheiro na África.  Na rua Gana, em uma das vilas, eles exibem seus carros caros e se vestem bem com dinheiro dos diamantes africanos negociados com comerciantes judeus em Antuérpia. As mulheres cobrem a cabeça. Quase tudo foi reconstruído com ajuda de países como o Qatar e o Irã. Na vila de Qana, em um dos dois memorais para marcar as mortes – a maioria crianças – em bombardeios israelenses, meninos jogam bola ao lado de um tanque destruído. Em Bint Jbeil, o pequeno estádio de várzea onde o presidente Mahmoud Ahmadinejad discursou no mês passado se tornou atração turística. Não muito longe dali, há uma escultura de mais de cinco metros de um guerrilheiro do Hezbollah pisando em um capacete com a estrela de David.

Nestas vilas, não dá para diferenciar quem integra a organização e quem é civil. “Este homem que está fazendo o lahmajeen (espécie de esfiha maior) pode ser do Hezbollah. Ninguém tem como saber”, diz o motorista Hamza Tahan, diante do portão de Fátima, que fica em outra vila. Basicamente, quase todos os jovens xiitas libaneses do sul integram uma espécie de reserva da organização caso seja necessário lutar mais uma vez contra Israel – ou, quem sabe, para tomar o poder no Líbano.

Em Beirute, costuma-se dizer que, se o Hezbollah quisesse, eliminar seus rivais em algumas horas. Há dois anos, a organização praticamente conseguiu este objetivo ao ocupar as principais áreas sunitas da capital libanesa. Apenas se retirou por vontade própria, depois de enfrentar uma pequena resistência.

O grupo argumenta que não pretende instalar um regime nos moldes iranianos na liberal e sectária sociedade libanesa. De crianças prestando juramento de resistir contra os israelenses em uma manifestação em Nabatieh ao livro do número dois do grupo, Naim Qassem, sempre os integrantes deixam claro que a meta final é combater Israel.

Na visão do Hezbollah, eles venceram Israel duas vezes, enquanto os Exércitos dos países árabes sempre foram derrotados. “Os israelenses sabem lutar apenas contra soldados, não contra guerrilhas”, disse ao Estado um membro do braço militar da organização que se identificou como Abu Adballah. “Não adianta integrar as Forças Armadas libanesas porque isso apenas facilitaria a vida dos israelenses em uma guerra”, diz. Ele acrescenta que “a única estratégia para vencer Israel é lutar como a gente”.

“O Hezbollah acredita que pode derrotar os israelenses pela força”, afirma Thanassis Cambanis, autor do livro sobre a organização denominado “A Privilege to Die”, lançado neste ano. Hani Sabra, da Eurasia, discorda. “O projeto de longo prazo do Hezbollah não é destruir Israel. A organização tem um foco doméstico”. Mas não para controlar o Líbano como um Estado islâmico. Apenas para manter o seu poder. Reva Bhalla, da Stratfor, concorda. A analista acrescenta que a “organização não é tão monolítica”, como dizem. Existem os mais radicais, como Qassem, e os pragmáticos, como o xeque Hassan Nasrallah. Alguns são mais ligados a Damasco, outros a Teerã.

AMANHÃ AS FOTOS DO SUL LÍBANO

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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