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Diário de Porto Príncipe – Capital do Haiti decaiu até esquecer que, como o Rio, está na beira do mar

gustavochacra

27 de novembro de 2010 | 11h25

Em tempos com menos violência, costumam afirmar que os cariocas vivem melhor do que os paulistas porque possuem diversão de graça. Basta ir à Ipanema, Copacabana ou Barra da Tijuca. O mesmo se aplica a quase todas as grandes cidades do mundo à beira do mar, das mais ricas às mais pobres, de Abu Dhabi a Dakar.

No Oriente Médio, até mesmo em Gaza os habitantes podem esquecer um pouco do bloqueio para mergulhar no Mediterrâneo. Tel Aviv tem como marca registrada os kite-surfes no céu. Os libaneses de todas as religiões, de cristãos a druzos e de sunitas a xiitas, fumam narguilé no corniche, enquanto mulheres de biquíni cruzam com outras de hijab neste calçadão onde pouco importa se a pessoa frequenta uma mesquita, igreja ou um bar.

Nas Américas, os cubanos podem ter perdido tudo nestas décadas de comunismo, menos o prazer de caminhar no Malecon, ainda que diante de prédios com a pintura descascada. Outros, que fugiram do regime de Fidel para os Estados Unidos, correm pelas areias de Miami Beach. Nos verões, Nova York também tem a sua praia – decadente e ainda assim simbólica Coney Island com o seu Luna Park.

Estas cidades na beira do mar tem seus hotéis, que são verdadeiros palácios de balneários. Há o Cecil Hotel de Alexandria, o Copacabana Palace do Rio, o Phoenicia de Beirute, o Maria Cristina de San Sebastian, o Negresco de Nice, o Atlântico de Santos, o Cape Grace da Cidade do Cabo, o Atlantis de Dubai, o Fontainebleau de Miami e o Havana Livre da capital cubana.

Porto Príncipe é diferente. A cidade fica na costa do Caribe. Teria tudo para ser, mesmo pobre, uma das mais magníficas capitais desta região do mundo por ser recortada por acidentes geográficos e montanhas, como o Rio, Beirute e Cidade do Cabo. No passado, em meio às suas ditaduras e golpes de Estado, teve o seu apogeu, quando era a pérola caribenha. Na época, ainda era possível viver de frente para o mar em mansões com palmeiras imperiais.

Depois de décadas de decadência ininterrupta, a orla da capital haitiana se transformou em uma gigantesca favela. Não há calçadão e tampouco praia. As águas são poluídas. Os ricos fugiram para as montanhas, no alto da cidade, em Petionville, que seria o equivalente dos Jardins de Porto Príncipe. Dá para passar dias nesta cidade sem ver as águas do mar. Os haitianos, com toda a sua miséria, sequer podem jogar futebol na praia. No calor de Porto Príncipe, alguns recorriam ontem a um córrego para se refrescar. Provavelmente, irão contrair cólera.

Para complicar, se não há lazer no Haiti, tampouco existem os serviços básicos para um ser humano sobreviver. Não há hospitais públicos. Organizações internacionais, como a Cruz Vermelha, que oferecem atendimento médico. Escolas são privadas ou bancadas por ONGs e entidades multilaterais. O transporte público se restringe a lotações chamadas de taptap. A segurança está nas mãos das forças de paz da ONU. O Estado haitiano é como as praias de Porto Príncipe – inexistente.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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