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Diário de Porto Príncipe – Haitianos não gostam de falar do terremoto

gustavochacra

28 de novembro de 2010 | 10h30

Os haitianos não gostam de falar sobre o terremoto. Parece ser um tabu nas conversas daqui. Sempre que tento tocar no assunto em entrevistas, eles mudam de tema. Quase ninguém quer dizer se perdeu algum parente ou amigo nos tremores de terra. No máximo, afirmam que estão vivendo em barracas de acampamento porque suas casas foram destruídas na tragédia de janeiro.

Quando estive aqui em janeiro nos dias seguintes ao terremoto, todos os haitianos contavam de alguma pessoa próxima que perderam. Desta vez, pelo menos dois entrevistados chegaram a dizer que não conheciam nenhuma das vítimas. Algo estranho em Porto Príncipe, onde cerca de um quinto dos moradores morreu.

Nem mesmo os candidatos presidenciais abordam a questão dos tremores de terra. Preferem prometer educação e saúde. Como uma das mulheres é candidata – e favorita -, também passaram a defender a igualdade entre os sexos neste que é um dos países mais machistas do mundo.

Alguns bairros, especialmente os próximos ao centro, ainda estão destruídos. Mas nada que se compare ao cenário do Haiti nos dias seguintes ao terremoto. Aquela visão de apocalipse melhorou um pouco, apesar de ainda ser um dos lugares mais arrasados de todo o mundo.

Talvez o maior símbolo de ruína do Haito seja o Palácio Nacional de Porto Príncipe, sede da Presidência Haiti, que desmoronou. Na sua fachada, com a bandeira rubro-celeste em um gramado diante dos escombros, foram colocadas as fotos de todos os candidatos presidenciais na eleição de hoje. O vencedor terá o direito de ocupar uma das tendas montadas ao lado da gigantesca construção arruinada, de onde Rene Preval literalmente tenta governar o país mais pobre das Américas.

Se o terremoto começa, vagarosamente, a ser cicatrizado, uma nova ferida se abriu com a cólera. Ao menos 1.400 pessoas já morreram. O número equivale ao total de vítimas da guerra de Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza. Cerca de 60 mil foram infectados. Nos próximos meses, o número deve saltar para mais de 400  mil.

Em um córrego da capital, não muito distante do aeroporto, um menino tomava banho. A água estava completamente suja. Preocupado com a situação, o instruí para que saísse dali para não contrair cólera. Ele sorriu como se fosse um exagero. No centro da cidade, o segurança Patrick carregava um álcool gel. “Sempre trago comigo”, disse ao ser indagado se tomava precauções com a doença. Mas seu caso é mais comum à pequena classe média haitiana. Por todas as partes, as pessoas continuam cozinhando nas calçadas, sem lavar as mãos e manter a higiene.

A segurança avançou, graças ao trabalho das forças da ONU. Consegui andar pelas ruas de Cite Soleil ontem sem enfrentar o menor risco, conforme relatarei em futuro post. Esta favela, alguns anos atrás, era uma zona de guerra. A pacificação demonstra que, apesar de todas as suas mazelas, o sonho de o Haiti se reerguer não pode ser descartado.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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