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Diário de Porto Príncipe – O Haiti está para os países como o câncer está para as doenças

gustavochacra

25 de novembro de 2010 | 01h43

O nome Haiti está para os países assim como o câncer está para as doenças. Diabetes, ataques cardíacos, derrames e uma centena de doenças também matam, como todos sabemos. Mas nada choca tanto quanto saber que uma pessoa próxima está com câncer. Podem haver terremotos no Chile, pisoteamento em Camboja, tsunami na Indonésia e ataques terroristas no Iraque. Mas nada tem o impacto das tragédias do Haiti, que cada vez mais se parecem metástases de um tumor maligno.

Ao ir para zonas de conflito, como Gaza, Líbano ou Yemen, sempre escutei de meus amigos a frase “o que você fará nestes lugares, seu louco?”. E sempre respondi que Beirute é uma das mais cosmopolitas e boêmias cidades do mundo. Que em Gaza, apesar do bloqueio e da destruição, existe o prazer de caminhar à beira do Mediterrâneo. E Sanaa possui uma das arquiteturas mais impressionantes do Oriente, tombada pela Unesco, com alguns dos primeiros arranha-céus da história da humanidade em uma “Manhattan” de mil anos atrás.

Ao dizer que viajaria aqui para Porto Príncipe, a reação é distinta. Todos imediatamente demonstram preocupação, para tomar cuidado com a cólera, com a violência, com a malária. Ficam com dó dos haitianos. É dos poucos temas que existe concordância entre democratas e republicanos em Washington. Notem que, no caso do Líbano, de Gaza e do Yemen, tenho que escutar “o que você vai fazer no meio do Hamas, Hezbollah, e Al Qaeda?”. Uma resposta simples seria comer hummus, mas prefiro não perder o meu tempo.

Voltei hoje, pela segunda vez, ao Haiti. A primeira foi em janeiro, um dia depois do terremoto. Desta vez, a única certeza, na minha cabeça, era de que, pior do que aquilo, não tinha como ficar. Podem falar de cólera, confusão eleitoral, o que for. Mas estas são metástases do temor maior, do tremor de terra que ruiu as já abaladas estruturas haitianas.

Ontem, o aeroporto JFK, em Nova York, estava lotado por ser véspera do Thanksgiving, que tem uma importância tão grande quanto o Natal para os Estados Unidos. A maior parte dos americanos embarcava para as cidades de suas famílias. Outros aproveitavam os quatro dias de folga para uma passagem pelo Caribe ou Europa. Eu cheguei para vir para Porto Príncipe. E fui encaminhado para o check-in eletrônico. Tive problemas para conseguir emitir o cartão de embarque a funcionário veio me ajudar com o mau humor que se tornou clichê nas companhias aéreas americanas.

Ao ver que eu viria para o Haiti, ela imediatamente quis resolver tudo, ficou preocupada e disse, assim como a minha mãe e outras pessoas, para tomar cuidado com a cólera. Até me levou para colocar a mala na esteira para despachar. Na polícia federal americana, a mesma coisa. Os homens olhando com cara de bravos e tentando descobrir um terrorista. Como sempre, sabe-se lá o motivo, não percebem meus vistos gigantescos do Yemen e da Síria no passaporte. Ou, pelo menos, não falam nada. Reclamam apenas que eu não tirei o cinto e outras coisas banais em um Estados Unidos cada vez mais neurótico com a segurança.

Depois de ler a palavra Porto Príncipe no cartão de embarque, a fisionomia do agente mudou. Ficou preocupado. “Take care and have a safe trip”, disse. No avião, muitos haitianos também aproveitavam para visitar a família. No meio, alguns poucos jornalistas. Todos sabem da gravidade do cenário no Haiti.

Esta nação caribenha realmente é um dos países mais atrasados do mundo. Certamente, o que está em piores condições de todos que já estive. Bem mais do que os territórios palestinos e mesmo o Yemen. Sem dúvida, Sanaa dá uma sensação de segurança bem maior do que Porto Príncipe. Não que a chance de morrer como vítima da violência seja maior aqui no Haiti do que nos outros lugares. O México, para ficar em um exemplo fácil, tem um número bem maior de assassinatos e sequestros.

O problema é que o Haiti, como disse acima, parece ser como o câncer. Sempre aparece uma metástase nova. Foi assim em quase toda a história, da independência em 1804, reconhecida pelos EUA apenas seis décadas depois, à ocupação americana. De ditadores como Papa Doc a líderes civis corruptos como Jean Bertrand Aristide. Neste ano, tivemos o terremoto que matou cerca de 200 mil pessoas. O valor é gigantesco, uma bomba de Hiroshima, mais de 60 vezes o 11 de Setembro. Agora, temos a cólera. Já morreram cerca de 1.400, que equivale ao total de vítimas na Guerra de Gaza.

Mais tarde, contarei mais do dia a dia aqui, já que desembarquei tarde em Porto Príncipe.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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