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Dica – Abandone o Facebook e o Twitter e vá nadar, pintar, ler e viver

gustavochacra

12 Janeiro 2017 | 13h43

Um dos melhores filmes que assisti nos últimos tempos se chama “Paterson”. Conta a história de um poeta que trabalha como motorista de ônibus municipal em uma cidade homônima dele – Paterson, no Estado de Nova Jersey.

Paterson, que é estrelado pelo ator Adam Driver (o Adam da série Girls, da HBO), acorda todos os dias, sem despertador, ao lado de sua mulher, entre 6h15 e 6h30. Ele vê o horário no relógio de pulso. Toma café da manhã e vai caminhando e pensando em poesias para a garagem, onde assume o comando de um dos ônibus municipais. Antes de sair, conversa rapidamente com seu chefe, um imigrante indiano.

Na hora do almoço, Paterson abre a sua marmita com um sanduíche e observa uma queda da água em uma área industrial decadente. Escreve um pouco de poesia e volta para o trabalho no ônibus, onde ele se diverte escutando a conversa das pessoas. Terminado o expediente, deixa o ônibus na garagem municipal e volta para a casa andando. Ao chegar, janta com a mulher, que é artista plástica e aspirante a cantora. Depois, sai para caminhar com o cachorro até um bar no bairro, toma uma cerveja, conversa com alguns frequentadores e volta para a casa para ficar com a mulher e escrever poesia. Aos fins de semana, Paterson vai ao cinema com a mulher e jantar fora.

O filme, basicamente, conta todos os dias, de segunda a domingo, da vida de Paterson, que é extremamente feliz com a vida dele. E ele não tem celular, não usa computador e sempre é educado nas suas conversas. Não precisa de mais nada.

Eu nunca conseguirei ser como Paterson e nem é este meu objetivo. Acho que a tecnologia traz benefícios. Mas, não nego, reduzi acentuadamente o uso do Facebook e do Twitter. Muitos conhecidos têm feito o mesmo (se bem que 90% das pessoas que eu conheço nem tem Twitter). Apenas não anunciam nas redes sociais porque o objetivo é justamente não usá-las.

Há cerca de 3 anos, não entro na minha newsfeed do Facebook. Isso não afetou em nada a minha vida. Desde antes do Natal (pouco tempo, admito), não vejo a minha newsfeed no Twitter e não interajo com os seguidores. Apenas compartilho os textos que escrevo no blog. Admito, gosto do Instagram. Mas o Instagram é, para mim, diferente. Um álbum de fotos para acompanhar amigos e também para ver imagens do Líbano (sigo várias contas do país), da Síria, do Brasil e de Nova York. E sou muito ativo nos grupos de amigos no whatsapp, mas talvez reduza o uso.

Mas o que me chamou a atenção no caso do filme Paterson não foi ele evitar o uso de tecnologia. Isso é o de menos. Foi ele transformar “rotina” em “ritual”. Eu faço o mesmo há alguns anos e os resultados foram excelentes. Super aconselho.

Comecei a valorizar “rituais” ao lembrar do meu avô Mario Cerello, uma das pessoas mais alegres que eu conheci. Ele tinha o ritual de todas as sextas ir comprar carne, pegar o carro e descer para o Juquehy, no Litoral Norte paulista, quando nem existia a Rio-Santos e, em alguns pontos, como na Boracéia e na Praia de São Lourenco (atual Riviera), era necessário dirigir pela areia. Em Juquehy, acordava cedo, corria ida e volta na praia, voltava, tomava café da manhã, ficava no sol até umas 10h, almoçava escutando música na mesa 1h30 e obrigava todos os familiares a estarem presentes. Dormia um pouco, via sessão da tarde, andava mais uma vez na praia no fim de tarde, voltava, tomava um banho gelado e fazia churrasco. Enfim, um ritual.

Eu tenho vários rituais. Por exemplo, todos os domingos, vou até o Zabar’s (um tradicional mercado judaico de Nova York) comprar salmão defumado, bagel, coalhada e pecan pie para o jantar domingo para ver séries na TV com a minha mulher depois de a minha filha dormir. Nada de mais. Parece rotina. Mas é ritual. O mesmo vale para a caminhada com o meu cachorro no parque. Até quando vou para a TV trabalhar, tenho meus rituais, como comer uma maçã no caminho, tomar café e, para desespero do Sérgio Aguiar da Globo News, comer um tablete de chocolate “para dar energia” antes de entrar no ar.

E o ritual mais importante para mim é nadar. Sei que, em toda a minha vida, nunca me arrependi de fazer natação um só dia – tem aqueles dias no inverno frios que dá uma certa preguiça de sentir o frio inicial de quando entramos na piscina. Mas depois de algumas braçadas passa o frio. Sempre me pergunto o motivo de todas as pessoas não nadarem todos os dias. Ainda bem, afinal lotariam as piscinas.

Pessoas religiosas têm os seus rituais de ir à igreja, de ir à mesquita ou à sinagoga. Isso as faz se sentir bem. É um ritual. É um momento em que podem refletir. Os praticantes de meditação e yoga também. Eu não sou religioso e não sei meditar. Portanto não tenho estes rituais. Mas me encontro e reflito quando nado e quando ando no parque. E fico na expectativa sempre de chegar o domingo e comer bagel com salmão defumado (que é possivelmente o prato mais típico de Nova York).

Agora, nestes anos todos, desde 2007, com o advento do Facebook, nunca vi ninguém ter ficado mais feliz por entrar nesta rede social. Não é ritual. Sinto muito. É uma rotina péssima e inútil. Pesquisas indicam claramente que piora o humor, aumenta a inveja e causa polarização. O mesmo vale para o Twitter. Portanto é óbvio que perdemos muito tempo nestas redes sociais. Não precisamos virar o Paterson. Mas vejam o que faz bem – será que vale perder uma manhã brigando com amigos e desconhecidos sobre a polêmica inútil do dia? Será que vale deixar para a posteridade virtual uma opinião impulsiva sua, que cairia no esquecimento se fosse dada em um bar?

Enfim, este post não tem nada de EUA, de Oriente Médio. Mas amanhã volta a falar de EUA, Turquia e Síria. Só acho que, aos poucos, cada vez mais pessoas retornarão para o bom senso, se cansarão das redes sociais e ficarão de saco cheio dos extremistas de esquerda e de direita do Facebook. Podem apostar. Há um sentimento crescente de saco cheio com a polarização.

Eu já me esgotei. Só não apaguei minhas contas no Facebook e Twitter por questões profissionais (se não fosse jornalista, só teria o Instagram). Tem muita gente que você não vê no Facebook que também cansou. Elas devem estar trabalhando, nadando, correndo, pintando, cantando, lendo ou conversando pessoalmente com os amigos.