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Direto da Crimeia – A eleição de Putin, por Filipe Barini

gustavochacra

17 Março 2018 | 19h01

O texto abaixo foi escrito pelo pesquisador de mídia Filipe Barini a convite do blog direto da Crimeia. Ele foi visiting scholar da Universidade Columbia em Nova York e atualmente realiza pesquisas em São Petersburgo, na Rússia

FILIPE BARINI

DA CRIMEIA

Desde fevereiro, quando cheguei à Rússia, dei continuidade a um processo de pesquisa sobre o papel da mídia como ferramenta política do governo russo, especialmente no exterior. E percebi que, por algum acaso do destino, estaria aqui durante a eleição presidencial. O resultado provavelmente trará um Vladimir Putin reeleito com facilidade no primeiro turno. Então, como ver esta eleição de um ponto de vista diferente, saindo um pouco da mesmice das campanhas? Pensei e apenas uma resposta óbvia me veio à mente: Crimeia.

Esta península com milhares de anos de história foi parte da Rússia até 1954, quando Nikita Khrushchev, então líder soviético, autorizou a transferência do território para a Ucrânia. As circunstâncias até hoje vivem em uma zona cinzenta. A maioria da população é russa, mesmo antes da anexação. Em 2014, em meio à crise da Ucrânia e à derrubada do presidente Viktor Yanukovich, o presidente Vladimir Putin decidiu que a Rússia iria trabalhar ativamente pelo que chamou de “manutenção da segurança dos russos na península”. O resultado foi uma ocupação militar,  um referendo no dia 16 de março de 2014 e a posterior anexação, dois dias depois.

Em tese, a Crimeia está em um limbo diplomático. Para a Rússia, é uma das suas regiões. Para a Ucrânia, é um território ocupado. Para mim, era um desafio que parecia ser a mais óbvia história desta eleição de 2018.

Na chegada a Simferopol, em um voo doméstico, sou surpreendido com uma checagem de passaportes na saída do terminal. Militares em roupas pretas, mas devidamente identificados, fazem algumas perguntas, quase como em uma chegada a um novo país. São muito gentis, fazem uma brincadeira sobre a distância da Crimeia para o Brasil e depois me liberam. Ao sair na rua, percebo que, sim, aqui é Rússia, mesmo sem o reconhecimento internacional. Os cartazes chamando a população para votar estão em todas as ruas e estampam alguns ônibus. Em alguns estabelecimentos, há fotos de Putin – afinal, dizem eles, nós votamos para fazer parte da Rússia, então ele é o nosso presidente. Em uma longa caminhada, vi apenas uma placa em ucraniano, uma placa que apontava o caminho para Kiev.

A Crimeia deve dar a Putin uma das maiores votações deste domingo. A expectativa é de que aqui ele tenha algo em torno de 90% dos votos, além de um alto comparecimento. Serão duas regiões de votação: a primeira é a da Crimeia em si, a segunda é a de Sevastopol, que depois da anexação de 2014 se tornou uma cidade federal, ao lado de Moscou e São Petersburgo. Putin vê com bons olhos números assim, especialmente para legitimar o discurso de que o referendo de 4 anos atrás apenas atendeu aos anseios da população local.

Ao conversar com os moradores, percebe-se rapidamente que eles estão satisfeitos com a atual situação. Alguns evocam Putin como o líder que garantiu a segurança, outros lembram dos laços históricos – como um cartaz que vi em uma avenida de Sevastopol, o qual dizia que a Crimeia “voltou para casa”.

Um sentimento de nacionalismo que se percebe nas ruas. As bandeiras tricolores da Rússia estão em todo lugar – algumas ironicamente penduradas em um dos maiores hoteis de Sevastopol o Ucrânia, em uma região histórica do centro. O nome que, hoje, é  das poucas referências de que 4 anos atrás uma bandeira azul e amarela, as cores ucranianas, estava pendurada ali, naquela mesma sacada.