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DIRETO DE WALL STREET – Um dia no meio da ocupação (a maioria é hipster e ex-hippie)

gustavochacra

16 de outubro de 2011 | 14h05

 no twitter @gugachacra

Antes de começar, apenas gostaria de lembrar que este blog foi um dos primeiros órgãos de imprensa a cobrir a ocupação de Wall Street. Como no caso da Síria, fui pessoalmente aos acontecimentos, em vez de observar na TV. Gostem ou não do relato, esta é a minha visão, como também no caso de Damasco

Em uma praça do distrito financeiro de Nova York, no núcleo do movimento de ocupação de Wall Street, que se espalhou por mais de 90 países, um manifestante tatuado de cueca vermelha e branca estampada carrega um cartaz pedindo para os deputados dos EUA ganharem no máximo US$ 70 mil – salário de classe média no país.

Como ele, cada uma das cerca de mil pessoas de todas as idades ocupando uma praça em Manhattan do tamanho de um quarteirão quer dar um recado diferente para protestar contra o sistema. Não existe uma mensagem homogênea nesta espécie de comunidade anarquista a entre o World Trade Center e Wall Street.

Uma menina de cabelo curto e cara de assustada pendurou no pescoço um papelão com os dizeres “ocupe a alma”. A repórter do canal iraniano Press TV tentava entrevistar uma ativista para mostrar que os EUA reprimem manifestantes. O problema é que um outro ocupante a acusa de servir a um “regime fascista”.

Em um canto da praça Zuccotti, ou da “liberdade”, como os manifestantes a apelidaram, um grupo enrola um cigarro de palha. Mas também dá para sentir o cheiro de maconha. Bandeiras de arco-iris com o símbolo da paz e outras do Che Guevara ficam penduradas nas árvores. Com uma cauda de dragão, uma jovem estudante comanda a equipe de jardinagem para plantar flores. Ali perto, um grupo toca tambores entoando gritos contra o capitalismo.

Não há líderes, mas apenas grupos de trabalho e todos podem participar. Ao todo,  no dia em que passei no local, contei cerca de 30. Há o de assuntos latino-americanos, de  advocacia, conforto, armazenamento, mídia, educação, sustentabilidade e mesmo biblioteca. Os médicos andam com uma cruz vermelha grudada nas roupas.

De manhã, todos acordam bem cedo, antes das 6h. O café da manhã, assim como o almoço e o jantar, é servido no que eles chamam de “cozinha”. Basicamente, uma mesa onde são entregues comidas através de doações vindas de todos os Estados Unidos. Muitos dizem que o mega-investidor George Soros está por trás, mas não há provas concretas. Um dos cardápios é vegan, mas também dá para comer doritos e carne.

O banheiro fica no McDonald’s ou na Starbucks. Depois de despertos, todos saem para a marcha matutina, andando nas ruas do distrito financeiro de Nova York enquanto engravatados descem dos metrôs para trabalhar em bancos como o Goldman Sachs e nos fundos de investimento desta região. Os pedreiros do WTC também começam a pegar no batente enquanto observam com ar de curiosidade os manifestantes.

A maior partes dos ocupantes é jovem, com menos de 30 anos. São o que se descreve como hipsters nos EUA. Usam roupas descoladas, barbas por fazer, cabelos despenteados e lançam tendências de moda e comportamento. No protesto, rola paquera e mesmo namoro entre eles. Muitos estudam em universidades da cidade como a New York University e a New School. Alguns acabaram de se graduar. Mas não dá para generalizar. No meio, duas meninas de hijab também estavam acampadas entre as tendas de lona com um perfil bem diferente dos hipsters.

Também existem pessoas com mais de 60 anos. Alguns são ex-hippies, que se vestem como nos tempos de Woodstock. Uma delas, aparentemente drogada, me abordou para contar do nada a cena de um filme que havia visto nos anos 1970. Além deles, existem uma série de aposentados próximos dos 80 anos que se solidarizaram com os protestos dos mais jovens. “São como se fossem meus netos e fico preocupada com o futuro deles”, disse uma delas, apelidadas de “grandmas” (vovós).

Alguns sem-teto também aproveitaram a oportunidade de dormir em uma praça animada, com música, gente bonita, colchões e, mais importante, uma boca-livre em Buffet a céu aberto que não fecha nunca. “Este lugar é minha casa agora”, disse um deles, que se recusava a levantar do seu colchão.

Durante o dia, alguns se reúnem no grupo de trabalho. No de mídia, um rapaz de cerca de 25 anos dava as instruções. “Temos que nos focar na questão dos 99%. Qualquer jornalista que perguntar, fale que somos os 99%. Estamos com problemas por não termos uma mensagem clara”, disse. Os 99% seriam o percentual da população que, segundo eles, são explorados pelo 1% das grande corporações.

Alguns lêem o “The Occupied Wall Street Journal”, a revista Revolution ou um dos vários panfletos explicando o anarquismo. Em um dos cantos da praça, pessoas meditam diversas horas por dia diante dos policiais. Outros pegam vassouras e rodos para manter a limpeza do local. Algumas mesas possuem computadores com conexão para a internet. Estudantes aproveitam para escrever os seus papers da universidade enquanto outros baixam filmes das ações policiais contra o protesto no YouTube que serão assistidos de São Paulo a Tel Aviv.

Funcionários dos bancos de Wall Street descem para ver o movimento. Ninguém tem nada contra os manifestantes e alguns até simpatizam. A maior parte não os leva a sério e acredita que, com a chegada do frio, os ocupantes voltarão para as suas casas. Inclusive, muitos dos jovens fazem isso todos os dias, ao passarem em seus apartamentos em outras partes de Manhattan, Brooklyn e Queens.

Às 19h, acontece a Assembleia Geral. É o grande momento do dia e quando a praça está mais lotada. São adotadas as determinações. Como não há alto-falante, eles criaram o microfone do povo. Uma pessoa fala e as demais vão repetindo até chegar aos cantos da praça. Há assuntos sérios, como quais os passos a serem tomados no dia seguinte em relação aos protestos e negociações com a prefeitura. Outras vezes, pedem para entrar em contato com “a Lisa com a jaqueta laranja e preta”. Quando há brigas, todos começam a gritar “agressão, agressão”. Depois de mais uma marcha e de rodas de conversa, todos começam a abrir seus sacos de dormir ou se estiram em colchões para dormir, encerrando mais dia da ocupação de Wall Street.

Obs. A resposta do post da teoria dos jogos será publicada depois da série de matérias sobre a Síria

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O jornalista Gustavo Chacra, correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” e do portal estadão.com.br em Nova York e nas Nações Unidas desde 2009, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Iêmen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al-Qaeda no Iêmen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

 

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