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Do Cairo a Beirute – Kadafi é motivo de gozação no mundo árabe

gustavochacra

22 de fevereiro de 2011 | 12h52

No Twitter @gugachacra

O mundo árabe também tem seus estereótipos internos. Os libaneses são os decadentes cultos, que sempre conseguem uma forma de implodir um país com enorme potencial. Uma espécie de Argentina do Levante. Aceitam que não vivem mais o apogeu dos anos 50 e 60. Mas ainda se preocupam com a forma elegante de se vestir, em apreciar bons vinhos e ler autores europeus e orientais em inglês, árabe e francês. Os sírios seriam uma espécie de subúrbio. As meninas, bonitas como as libanesas, se vestem de uma forma mais brega. É a terra das novelas, o México da região. 

O Egito  seria o Brasil, o maior de todos, com suas desigualdades e uma eterna promessa. O Cairo perdeu para Beirute o posto de centro intelectual da região. Os libaneses, os sírios e os palestinos olham os egípcios de cima para baixo. A Jordânia é um mini-EUA, ou o interior de São Paulo. Amã pode ser organizada, mas não tem história ou charme. Os kuwaitianos e sauditas são os emergentes deslumbrados. Os “golfies”, como gostam de dizer os libaneses. Visitam Beirute para beber, se drogar, dançar, pegar profissionais de entretenimento adulto masculino e feminino. Os palestinos são os coitadinhos, que todo o mundo defende. Mas ninguém os quer por perto. “Problema de Israel”, dizem.

Já os líbios são os habitantes daquele país no norte da África com o ditador palhaço. Muamar Kadafi, um assassino, é motivo de chacota nos países árabes. Ninguém o teme, ninguém o respeita mais. Não é um Saddam Hussein. Usa umas roupas cafonas, escreveu um livro bizarro e só fala bobagens. Os xiitas libaneses o odeiam por ter matado um líder do Hezbollah. Mas no fundo o acham uma figura ultrapassada. Com esta imagem patética entre os árabes, decidiu se voltar para os africanos, que pegam o dinheiro do petróleo líbio e riem da cara e dos cabelos tingidos do ditador amigo do Berlusconi.

Apesar disso, ele não é tão idiota assim. Nos últimos anos, contratou uma empresa de relações púb.icas de Nova York e decidiu mudar a sua imagem, querendo se vender como um estadista pró-paz. Funcionou razoavelmente bem, chegando a publicar um artigo no New York Times defendendo um Estado binacional com palestinos e israelenses.

Um de seus filho é um mimado, agressivo, que chegou a ser capitão e técnico da seleção ao mesmo tempo. Aliás, chegaram a marcar um jogo do Brasil contra a Líbia no passado. Um livro britânico afirma que Zagalo e Ricardo Teixeira teriam recebido dinheiro dos Kadafi. O outro filho, Saif, é mais preparado e escreveu papers bem razoáveis quando era aluno da London School of Economics. Era mais um da legião modernizadora que queria substituir o pai.

Pena a Líbia não ser mais explorada. Os correspondentes de Oriente Médio (incluindo este repórter) sempre optaram por se basear em Jerusalém, Cairo e Beirute, deixando de lado outras regiões

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios
 

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