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Do Chacra a Ahmadinejad – A pergunta que fiz ao presidente do Irã em Nova York

gustavochacra

25 de setembro de 2010 | 10h45

Imagine poder fazer qualquer pergunta para o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad? Eu tive esta oportunidade ontem na entrevista coletiva concedida pelo líder iraniano em Nova York. Cheguei cedo ao hotel, cerca de duas horas antes. Do lado de fora, policiais americanos fechavam a rua. Abriram a minha mochila para verificar se eu não levava nada proibido e me encaminharam para o restaurante do hotel, onde estavam os outros jornalistas.

Uma hora antes do início, nos levaram um a um até a sala onde seria realizada a entrevista. De novo, os policiais americanos e agentes do serviço secreto inspecionaram minha mochila e fui submetido a um detector de metal.  Sentamos em mesas, com bloco de anotações e fones para ouvirmos a tradução do persa para o inglês. Também serviram água e balas. Uma bandeira do Irã foi colocada atrás do palanque, de onde Ahmadinejad responderia às questões.  Jornalistas do mundo inteiro se acomodavam para entrevistar o presidente. Mr. Bak, chefe da imprensa da missão iraniana em Nova York e conhecido dos jornalistas estrangeiros, começou a anunciar um repórter por vez.

Falou o da CNN, da Al Jazeera, da Reuters, de um jornal japonês, de uma TV italiana, do Wall Street Journal. O libanês, do Nahar, até ironizou Ahmadinejad quando foi chamado. “O senhor tanto crítica a grande imprensa americana, mas apenas concede entrevistas exclusivas para as grandes redes de TV e jornais dos EUA. Eu sou de um diário libanês e há anos tento falar com o senhor, sem sucesso”.

As perguntas continuaram, até o Mr. Bak anunciar “Gustavo Chacra, from o Estado de São Paulo”. Pronto, era a minha vez de perguntar.

“O senhor fala que nos EUA as eleições não são justas, não há liberdade de imprensa e respeito às minorias. Mas esta, na verdade, não é a  realidade no Irã, onde seus rivais estão em prisão domiciliar, jornalistas foram presos, torturados e exilados e os Bah’ai (uma minoria religiosa) são perseguidos?”

Resposta de Ahmadinejad

“Nossos oponentes estão livres. Eles podem dizer que estão presos, mas ficam o tempo todo divulgando comunicados. Talvez não saiam às ruas porque a população não os apóia.  E apenas um ou dois repórteres deixaram o país e mesmo assim porque quiseram. Isso não importa. Os iranianos são livres para viajar. Temos milhares de jornalistas e centenas de jornais.

Sobre a liberdade religiosa, nossa Constituição reconhece apenas as religiões oficiais, que são o islamismo, o judaísmo, o cristianismo e o zoroastrismo. Os judeus, apesar de serem 20 mil, tem direito a uma cadeira no Parlamento e todos os direitos dos muçulmanos. O mesmo vale para os cristãos e as outras religiões oficiais. Mas nós não podemos aceitar que alguém de repente comece uma religião e queira propagá-la.

Ahmadinejad respondeu. Ele não esquivou de nenhum ponto, porém acho importante contextualizar a resposta dele.

Repressão à Imprensa – Segundo os Repórteres Sem Fronteiras, dezenas de jornais foram fechados e dezenas de jornalistas presos, torturados e exilados, além de existir censura à imprensa

Minoria Religiosa – Cerca de 300 mil bahá’ís iraniano continuam sendo submetidos a um deliberado programa de ataques que pretende sufocar toda uma comunidade religiosa. Os seus sete líderes, absolutamente inocentes de qualquer delito, foram recentemente condenados a 10 anos de prisão em um julgamento conhecido como “show trial”, segundo o cineasta e ativista brasileiro Flavio Rassekh, que é bahá,i. “Eu li o processo desse caso página por página e não encontrei nada que prove as acusações, nem achei qualquer documento que pudesse provar a alegação do promotor”, disse a Sra. Shirin Ebadi, prêmio Nobel da Paz de 2003, numa entrevista de televisão transmitida em 8 de agosto pelo serviço de língua persa da BBC.

Abaixo, o convite oficial para a entrevista

In the name of God

Press conference of Iran’s president

New Date, Time and Location

Dear Gustavo Chacra

Refrence Number 99 a 4444

Following my prouios email, I am pleased to let you know, the planned-press conference of Dr. Ahmadinejad, President of the Islamic Republic of Iran, has been postpond from provious annoncec date and it will be hold on:

Friday September 24,2010.

11:00am – 12:30pm

Venue- Warwick New York Hotel

65 West 54th Street (at 6th Ave.)

NY 10019

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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