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Do Golã a Jerusalém – Nova lei de Israel enterra acordo com Síria e dificulta com os palestinos

gustavochacra

23 de novembro de 2010 | 03h17

A aprovação no Knesset de uma lei exigindo que seja realizado um plebiscito para a desocupação de terras anexadas por Israel praticamente enterra a chance de uma negociação com a Síria e reduz ainda mais a possibilidade de um acordo de paz com os palestinos.

A diferença nos casos sírio e palestino é o status dos territórios reivindicados pela Autoridade Palestina e pelo regime de Damasco. A Cisjordânia, até hoje, não foi anexada por Israel. Caso fosse, os israelenses precisariam conceder cidadania aos habitantes palestinos do território, colocando em cheque a maioria judaica no médio prazo. Portanto, esta área vista pelos palestinos como parte do futuro Estado, junto com Gaza, está fora da nova lei.

Ao mesmo tempo, Jerusalém Oriental, que os palestinos pretendem ter como capital, foi anexada pelos israelenses. Justamente por isso, precisaria ser levada a plebiscito em caso de desocupação, segundo a nova lei. Neste contexto, não seria impossível um acordo com a Autoridade Palestina, apesar de bem mais complicado a partir de agora. O status final de Jerusalém é um dos três entraves para a negociação, além dos assentamentos e da questão dos refugiados. No fim, os palestinos poderiam ter seu Estado na Cisjordânia, mas sem Jerusalém Oriental como capital porque Israel unilateralmente decidiu – isso, claro, se, em plebiscito, votarem contra a desocupação.

As colinas do Golã, que são um território sírio anexado ilegalmente por Israel, de acordo com a ONU, também estão sujeitas a plebiscito para serem desocupadas. Portanto, um acordo com a Síria, que já era difícil, caminha para o impossível. Netanyahu não poderá ser Begin, ainda que Assad seja Sadat. O então premiê israelense e o presidente egípcio chegaram a um acordo de paz e Israel desocupou o Sinai.  Agora, imaginem se o presidente sírio e o primeiro-ministro israelense fossem convidados por Obama para Camp David e negociassem um acordo por uma semana. No fim, Netanyahu precisaria levar o pacto para votação em plebiscito. Se os israelenses votarem contra, o Golã continuaria ocupado e, basicamente, Israel anexaria para sempre um território ilegalmente, segundo a ONU.

Apesar de não de não dizerem publicamente, os americanos se irritaram com a atitude israelense. Na minha avaliação, a ação de Netanyahu foi uma tática para conseguir apoio dos ministros na aprovação do congelamento dos assentamentos. Mas, hoje, isso não servirá para quase nada. Afinal, está cada vez mais claro que a Autoridade Palestina irá para a ONU buscar a criação de seu Estado. Seja no Conselho de Segurança, onde os EUA vetarão, seja na Assembléia Geral, onde devem ter apoio da maioria dos países.

O isolamento israelense pode crescer ainda mais. Uma pena, porque, não fosse esta bobagem (ou dogma) da ocupação, Israel seria admirado ao redor do mundo por seus avanços tecnológicos e por sua democracia. Em vez de pensar na Israel “Tel Aviv”, Netanyahu pensou na Israel “Hebron”, dos colonos.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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