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Do Haiti ao Wikileaks – O que a vergonhosa eleição haitiana e as monarquias árabes têm em comum?

gustavochacra

28 de novembro de 2010 | 23h48

Acompanhei durante o dia as eleições haitianas. Uma grande enganação. Eleitores procuravam desesperados seus nomes nas listas, mas ninguém conseguia votar. Provavelmente, depois da apuração e do segundo turno, países estrangeiros dirão que as eleições foram legítimas. Por trás das câmeras e das declarações oficiais, certamente comentarão que tudo não passou de uma fraude apenas para ter um presidente e um Congresso com quem possam negociar com algum respaldo da opinião pública internacional. Não acreditem em eleições em países com Estados inexistentes como o Haiti e o Afeganistão.

Agora à noite, li as reportagens do New York Times sobre os documentos secretos americanos divulgados pelo Wikileaks. Deixam claro o que todos já sabiama respeito das monarquias e ditaduras árabes, com a exceção da Síria e algumas poucas outras. Os sauditas e outros governos da região consideram o Irã um inimigo e torcem para os EUA ou Israel realizarem alguma ação para impedir que o regime de Teerã obtenha uma bomba atômica.

Na frente das câmeras, porém, fazem como nas eleições haitianas e dizem o que agrada à sua audiência, sempre “condenando” Israel e fingindo ser “amigo” do Irã. Na verdade, nunca defenderam os palestinos e pouco se importam com Israel. Nos documentos, eles indicam que o perigo mora em Teerã. Assim como, para a hipócrita comunidade internacional, é “legal” ter um governo “democrático” no Haiti, quando sabemos não ser verdade.

Sem dúvida, os israelenses são considerado o maior perigo para libaneses, sírios e palestinos. Mas, tenham certeza, o rei Abdullah da Arábia Saudita dorme à noite tendo pesadelos com Ahmadinejad, não com Netanyahu. E o Líbano, que parece ser um espelho do Haiti para atrair tragédias, tem tudo para ser o foco de uma nova guerra entre os partidários de Teerã e os de Riad. Uma pena.

Nota Importante – Acho lamentável a quantidade de mensagens racistas contra os haitianos que foram postadas nos meus textos escritos aqui de Porto Príncipe. Acrescento aqui não serão publicados comentários que ataquem a população do Haiti. Parece inacreditável existirem pessoas assim no Brasil

Comentários islamofóbicos, anti-semitas e anti-árabes ou que coloquem um povo ou uma religião como superiores não serão publicados. Tampouco ataques entre leitores ou contra o blogueiro. Pessoas que insistirem em ataques pessoais não terão mais seus comentários publicados. Não é permitido postar vídeo. Todos os posts devem ter relação com algum dos temas acima. O blog está aberto a discussões educadas e com pontos de vista diferentes

O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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