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Do Rio a Budrus – Diretora carioca e líder palestino explicam ao blog a resistência pacífica na Cisjordânia

gustavochacra

26 de abril de 2010 | 01h13

O movimento de resistência civil palestina conquistou a sua primeira vitória em Budrus. Os pouco mais de mil palestinos desta vila na fronteira da Cisjordânia com Israel, aliados a ativistas de 35 países e dezenas de israelenses, conseguiram forçar a alteração do traçado do muro que separa os dois territórios em uma série de manifestações e atos iniciados em 2003. Enquanto jornalistas de todo o mundo, incluindo este blogueiro, prestavam apenas nas ações violentas e inócuas do Hamas contra civis israelenses, outros palestinos se preocupavam em defender os seus direitos através da paz.

Ilhados – Da forma como estava, a barreira, erguida pelos israelenses  alegando questões de segurança, deixaria Budrus e outras cinco vilas em uma espécie de ilha, sem ligação com o restante da Cisjordânia. Seus habitantes também ficariam separados de suas oliveiras, que é a base da economia desta vila há séculos. Em um trecho, o muro de concreto passaria diante da escola da cidade e, em outro, atravessaria um cemitério.

Acima, a diretora Julia Bacha; abaixo, o líder palestino Ayed Morrar

O responsável direto pela vitória é o líder do movimento de resistência civil palestino Ayed Morrar, que se tornou um símbolo na Cisjordânia. O muro na área de Budrus está hoje praticamente sobre a linha verde, reconhecida internacionalmente como a divisa de Israel com a Cisjordânia. Seu sucesso levou a estratégia a ser replicada em outras vilas e até mesmo em Jerusalém Oriental.

Nova York – Em Nova York para a exibição do documentário “Budrus”, sobre a sua luta, ele criticou em conversa comigo as ações armadas dos palestinos.  “Temos que seguir lutando, mas de uma forma não violenta, com nossas mentes abertas. Não podemos continuar apenas reclamando que os Estados Unidos apóiam Israel. Precisamos persuadir a comunidade internacional a se posicionar ao nosso lado. Para estarem com a gente, não contra a gente. E também temos que convencer os israelenses de que somos apenas contra a ocupação, não contra eles”, disse Morrar.

Com cinco passagens por prisões em Israel, Morrar foi um dos líderes da Primeira Intifada. “Era uma liderança local”, afirma a brasileira Julia Bacha, que dirigiu o documentário sobre Budrus . Neste primeiro levante, no fim dos anos 1980, a tática era atirar pedras contra os israelenses. Na época, não havia ocorrido um atentado suicida cometido por nenhum palestino em toda a história.

OLP – “Os acordos de Oslo permitiram que os membros da OLP (Organização para a Libertação da Palestina) voltassem da Tunísia. Os líderes locais, da Primeira Intifada, achavam que Yasser Arafat e a Autoridade Palestina (AP) conseguiriam, através das negociações, criar um país”, diz Bacha, mas se frustraram. “Agora, eles começaram a se reorganizar”, acrescenta.

Morrar, idealizador do movimento, explica que hoje os palestinos possuem duas vias – uma ligada ao Hamas e outra ao Fatah. E ambas têm fracassado. “O Hamas conseguiu construir um cemitério, em vez de um Estado independente”, diz o palestino. O Fatah, e a AP, hoje liderada por um premiê independente, Salam Fayyad, “não atingem nada e estão construindo uma ditadura”. Segundo ele, “os palestinos perderam a confiança nos dois lados. Fayyad, segundo a diretora do documentário, tenta agora incorporar o movimento que nada tinha a ver com a AP. Morrar acrescenta que o premiê é apenas “um administrador de uma grande ‘companhia’ e não faz nada pela resistência pacífica”. “Ele poderia mobilizar 30 mil pessoas se quisesse, mas não faz nada”, afirma o líder do movimento de resistência pacífica em Budrus.

Apoio Israelense – Na avaliação dele e também de Bacha, nenhum acordo conseguirá ser imposto sobre a população palestina. “Será um processo que virá de baixo para cima”, disse Morrar. Uma de suas estratégias, no movimento, é não deixar ninguém de fora. Apesar das críticas ao Hamas e ao Fatah, ele afirmou os dois são necessários para o movimento obter sucesso. Inclusive, um de seus maiores aliados em Budrus era justamente o braço do grupo islâmico na cidade.

O apoio israelense também o surpreendeu. “Pensávamos nos israelenses apenas como soldados e colonos, mas não dá para generalizar. Muitos arriscaram a vida para nos defender”, disse, se referindo às dezenas de ativistas. Com o movimento se expandindo para Jerusalém Oriental, Bacha afirma que o envolvimento dos cidadãos de Israel aumentou ainda mais.

Mais um pouco do filme e da Julia Bacha

O filme Budrus, sobre a resistência pacífica palestina, aos poucos consegue chamar a atenção para este movimento fora da Cisjordânia e de Israel. Durante o início da mobilização contra o muro que incorporaria 40% das terras da vila, sequer a imprensa palestina de Ramallah enviava jornalistas para acompanhar o levante. Com o passar dos dias, chegou a TV de Israel e de outros países. Hoje, o filme, exibido em São Paulo e no Rio no festival “É Tudo Verdade”, chegou a Nova York, onde participa do Festival de Tribeca com ingressos vendidos para todos os dias.

“Nunca imaginaria em 2003 que estaria aqui em Nova York falando para uma audiência como a de ontem”, disse Ayyed Morrar, líder do movimento estrela do documentário dirigido pela brasileira Julia Bacha, com a produção da israelo-canadense, Ronit Avni. Na platéia da exibição do filme, estava o ator Robert de Niro em meio a acadêmicos e personalidades americanas ligadas ao conflito no Oriente Médio. Christiane Amanpour, principal repórter da CNN, mediou depois da exibição um debate com a diretora. No final, Bacha e Morrar receberam o prêmio King Hussein de liderança internacional das mãos da Rainha Noor.

Muitas das imagens do documentário foram conseguidas através de gravações feitas por ativistas israelenses, afirma Julia Bacha, que estudou história do Irã na Universidade Columbia, em Nova York, com o Phi Beta Kapa – mais elevada distinção acadêmica na Ivy League, que reúne as oito mais tradicionais universidades americanas. Filha do economista Edmar Bacha, ela se envolveu na cobertura de conflitos do Oriente Médio como editora do premiado Control Room, sobre a cobertura da Guerra do Iraque e, posteriormente, ao dirigir Ponto de Encontro, que se focava nos movimentos de aproximação entre israelenses e palestinos. Novas imagens dos movimentos de resistência palestinos podem ser vistas no site www.justvision.org.


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Perfil (a ferramenta ao lado não funciona) – O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

Leia os blogs dos correspondentes internacionais do Estadão – Ariel Palacios (Buenos Aires), Patricia Campos Mello (Washington), Jamil Chade (Genebra), Claudia Trevisan (Pequim) e Adriana Carranca (pelo mundo)

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