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Do Vaticano a Jerusalém – O desconhecido universo dos cristãos do mundo árabe

gustavochacra

09 de janeiro de 2011 | 13h56

Escrevi em dezembro, quando estava em Beirute, uma reportagem sobre os cristãos no mundo árabe. Foi antes do atentado em Alexandria, mas o foco da matéria era justamente sobre a perseguição ao cristianismo. Na época, eu diferenciei bem a situação dos cristãos em cada um dos países árabes.

No Líbano, os cristãos ainda mantêm os postos de presidente e metade do Parlamento, apesar de serem, no máximo, 40% da população. Culpar a imigração é bobagem. Cristãos imigravam mais no início do século 20. Hoje, sunitas se mudam para São Bernardo e xiitas para Freetown com toda a naturalidade.

Os cristãos sírios não sofrem perseguição. São aliados de Bashar al Assad, que também integra uma minoria religiosa, a alauíta, apesar de ele pessoalmente ser praticamente ateu, sequer jejuando durante do Ramadã. Nesta semana, em Nova York, entrei em uma loja no West Village cujos donos eram um sírio e um libanês. Como sempre, o do Líbano perguntou a minha religião. E eu perguntei ao sírio, que se recusou a responder. Sírios dizem que são sírios. Libaneses dizem que são maronitas, ortodoxos, melquitas, sunitas, xiitas, druzos.

A situação é grave no Egito e no Iraque. Naquela reportagem, eu conversei com os cristãos iraquianos que se mudavam para o Líbano, onde não correm risco de perseguição. Ironicamente, eles disseram que era melhor a vida nos tempos de Saddam Hussein, quando o número dois do regime era o cristão Tariq Aziz. Agora, tivemos o atentado em Alexandria. No meu texto, eu alertei sobre a tensão entre cristãos e muçulmanos nesta  cidade egípcia.

Neste post de hoje, quero explicar as diferenças entre estes cristãos. Primeiro, eles não são católicos romanos – há católicos gregos (melquitas) e os católicos maronitas. Com algumas exceções, não respeitam a autoridade papal. São divididos entre si e possuem um forte sentimento nacionalista.

Os coptas são egípcios na sua essência. Sempre foram do Egito e são totalmente ligados ao país. Integram as camadas mais baixas da sociedade, mas alguns chegam a crescer na carreira, como Boutros Boutros Ghali, que foi secretário-geral da ONU. Boutros quer dizer Pedro. O mesmo vale para os caldeus. Eles são iraquianos, daquela região da Mesotopotâmia há séculos. Falam a sua própria língua, assim como os armênios, que não podem ser considerados árabes.

Os cristãos libaneses são de diversas denominações. Os mais numerosos são os maronitas. Das montanhas, são classificados como caipiras pelos mais sofisticados e cosmopolistas cristãos ortodoxos e pelos armênios. Não tem a mesma classe destes grupos sectários que sempre habitaram Beirute e outras grandes cidades da costa.

Os maronitas, como os druzos, viviam quase em um sistema feudal do Monte Líbano. Protegidos pela França, conseguiram que fosse criado um país na região com caráter cristão, que é o Líbano. Até hoje, o dia do descanso é o domingo, não a sexta.

Os cristãos ortodoxos, mais cosmopolitas do que os maronitas, sempre viveram bem com os outros grupos religiosos, como os sunitas e os judeus. Alguns possuem uma ligação muito forte com a Síria. Foram ainda a intelectualidade libanesa, além de responsáveis pelos principais movimentos árabes na década de 1920, similares à semana de 1922 no Brasil. Nos dias de hoje, os maronitas, com duas ou três gerações em Beirute, deixaram de ser aquele povo atrasado da montanha e são bem integrados aos cristãos ortodoxos.

O papa é a autoridade máxima para os maronitas, apesar de eles terem o seu patriarca, chamado Nasrallah Sfeir. Ironicamente, um xará do líder do Hezbollah. Politicamente, alguns são próximos dos xiitas e outros dos sunitas. Não existe união política entre os maronitas.

Os ortodoxos, assim como os caldeus, os coptas, os armênios e outros cristãos orientais, não respeitam o papa como figura máxima do cristianismo. Bento XVI seria apenas o patriarca latino. O Vaticano não passa de um lugar sem importância religiosa. Sagrado, para eles, é Belém e Jerusalém. Os cristãos palestinos, de origem ortodoxa, foram os líderes do movimento de independência palestino em seu início. Assim como na Síria, vivem bem com os muçulmanos.

A Igreja da Natividade, em Belém, e a do Santo Sepulcro, em Jerusalém, não estão sob controle dos católicos. Suas alas são divididas por estas igrejas orientais e há verdadeiras inimizades, como a dos armênios com os coptas. Os católicos não administram nada. Apenas os franciscanos, às sextas, podem entrar no Santo Sepulcro durante peregrinação pela Via Dolorosa.

Caso o islamismo não houvesse surgido, podem apostar, cristãos ortodoxos e católicos estariam lutando na região como sunitas e xiitas. Infelizmente, as pessoas desconhecem no Ocidente o cristianismo oriental. Esperar que o papa apite alguma coisa com os coptas é como pedir para o aiatolá Khamanei se intrometer na Arábia Saudita.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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