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Da Al Jazeera a Jerusalém – Papéis delineam a equação do conflito no Oriente Médio

gustavochacra

23 de janeiro de 2011 | 23h19

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Acabaram de começar a divulgar uma série de documentos vazados pela Al Jazeera sobre as negociações entre israelenses e palestinos. Algumas delas eram previsíveis, como a da Autoridade Palestina concordando em ceder quase tudo em Jerusalém e Israel perto de um acordo com a Síria sobre as colinas do Golã – o próprio presidente Bashar Al Assad me disse isso em entrevista no ano passado.

Outras já haviam vazado em alguns órgãos de imprensa, como a do presidente Mahmoud Abbas sabendo de antemão das ações israelenses contra Hamas às vésperas da Guerra de Gaza, em 2008-09. Mas algumas são novidades, como a da Autoridade Palestina concordando que apenas 10 mil refugiados retornassem para o que hoje é Israel.

Agora, vamos às conclusões. A divulgação dos papéis aparentemente enfraquece ainda mais a Autoridade Palestina. Porém os palestinos, mais do que ninguém, conhecem bem o Mahmoud Abbas e a AP. Não há novidade para eles em seu líder negociar com Israel e a fazer concessões. E o Hamas não se fortalece necessariamente. A administração do grupo em Gaza é péssima. Para Israel não há nada que afete radicalmente o país. Segundo algumas análises, a solução de Dois Estados estaria morta. Eu discordo. Achei que as negociações estavam bem avançadas e, convenhamos, divulgaram o que o governo israelense e o palestino pensam e dialogam entre si faz tempo. Logo, para eles, tudo já era conhecido.

Levando em conta não apenas os documentos do Wikileaks, mas também os cenários políticos no Líbano e no Iraque, dá para delinear  a Guerra Fria em andamento no Oriente Médio. Finalmente, os dois lados começam a se assumir. A vantagem é de que eles não escondem mais as suas posições – ou não conseguem mais esconder, graças ao Wikileaks. Não sei quem vai vencer. A equação da Guerra Fria do Oriente Médio está abaixo

EUA + Arábia Saudita + Israel + Egito + Coalizão 14 de Março (Saad Hariri, seus seguidores sunitas e seus aliados cristãos libaneses)  + Autoridade Palestina

VERSUS

Irã + Hamas + Coalizão 8 de Março (Hezbollah e seus aliados xiitas e cristãos libaneses)

As posições da Turquia e do Qatar, ainda incertas, são fundamentais. Por enquanto, estão navegando entre os dois lados

Quem conseguir conquistar o apoio da Síria deve sair vencedor. Afinal, os sírios têm força para determinar quem assumirá o poder no Líbano, para controlar o Hezbollah e o Hamas. Basicamente, para cortar as mãos do Irã. Ou, claro, agir como nos últimos anos, fortalecendo tanto a organização libanesa como a palestina, como pede o jogo do regime de Teerã. Conhecendo bem o regime de Damasco, posso assegurar que eles se preocupam apenas com seus próprios interesses 1) Ser a maior força dentro do Líbano 2) A devolução das Colinas do Golã 3) Investimentos econômicos

No caso, o eles estão barganhando o “1”. O “2”, como o Wikileaks mostrou, não é tão difícil de resolver. No “3”, sofrem sanções unilaterais dos EUA. Consequentemente, acabam precisando do Irã. Mais importante ainda, da Turquia. Os turcos podem ser a chave para a atrair a Síria. Se quiserem um termômetro, observem para onde ruma o líder druzo Walid Jumblatt, do Líbano. Ele sempre está no lado mais poderoso e sabe como poucos ler o Oriente Médio. Hoje, ele se aproxima do Hezbollah e do campo iraniano.

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O jornalista Gustavo Chacra, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia, é correspondente de “O Estado de S. Paulo” em Nova York. Já fez reportagens do Líbano, Israel, Síria, Cisjordânia, Faixa de Gaza, Jordânia, Egito, Turquia, Omã, Emirados Árabes, Yemen e Chipre quando era correspondente do jornal no Oriente Médio. Participou da cobertura da Guerra de Gaza, Crise em Honduras, Crise Econômica nos EUA e na Argentina, Guerra no Líbano, Terremoto no Haiti e crescimento da Al Qaeda no Yemen e eleições em Tel Aviv, Beirute e Porto Príncipe. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires. Este blog foi vencedor do Prêmio Estado de Jornalismo em 2009, empatado com o blogueiro Ariel Palacios

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