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É deprimente Brasil, Israel e EUA não reconhecerem o Genocídio Armênio

gustavochacra

03 de fevereiro de 2015 | 12h05

Postarei este texto todas as semanas no meu blog até o centenário do Genocídio Armênio em abril. Também publicarei outros artigos sobre o tema

Neste dia 24 de Abril, será o aniversário de um século do Genocídio Armênio. Ao todo, 1 milhão de armênios foram mortos pelas forças do Império Otomano. Outros centenas de milhares foram expulsos, incluindo crianças órfãs, e tiveram de caminhar pelo deserto até a Síria e o Líbano, onde conseguiram sobrevier e formar proeminentes comunidades em Beirute (região de Burj Hammoud), Aleppo e Damasco. Alguns seguiram viagem junto com libaneses e sírios para a América no processo imigratório da primeira metade do século 20 e hoje estão instalados em cidades como Los Angeles, Buenos Aires e São Paulo.

Muitos países já reconheceram o Genocídio Armênio. Entre eles, o Líbano, a França e a Argentina, além de muitos Estados americanos, incluindo a Califórnia. O então senador Barack Obama também reconheceu, embora o presidente Barack Obama, de forma vergonhosa, ainda não tenha reconhecido, assim como todos os seus antecessores no último século. Israel e Brasil, assim como os EUA, integram também o grupo de países que não tiveram a coragem de reconhecer o genocídio, amplamente documentado. E, no caso destes três países, é grave o não reconhecimento. Já pensaram se algum destes países não reconhecesse o Holocausto? Veja o ostracismo que, corretamente, foi colocado o ex-presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad.

O Brasil não tem argumento. A comunidade armênia implora há décadas pelo reconhecimento, ignorado inclusive pelos presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula, além de Dilma. Imagine se eles se recusassem a reconhecer o Holocausto ou o Genocídio no Camboja? É quase impossível conhecer algum armênio que não tenha perdido parentes no genocídio. E noto que nossa vizinha Argentina reconheceu e nem por isso entrou em atrito com a Turquia.

Israel argumenta que afetaria as relações com a Turquia. Como se estas fossem boas atualmente. O presidente turco Recep Tayyp Erdogan substituiu o iraniano Mahmoud Ahmadinejad como o maior algoz de Israel na comunidade internacional com discursos anti-israelenses (para alguns, antissemitas). Hoje, é dos raros líderes estrangeiros que apoia o Hamas politicamente, embora não militarmente. Sem falar que, mesmo que estas relações fossem boas, Israel, um Estado judaico, do povo que sofreu o maior genocídio do século 20, teria de ser o primeiro a reconhecer o genocídio dos armênios. Deixar para reconhecer agora, com as relações deterioradas, sempre terá uma mancha de vergonha. O reconhecimento devia ter sido feito há décadas. Noto que o pequeno Líbano, bem menos relevante geopoliticamente do que Israel, fez reconhecimento há anos e não por isso viu as suas relações com a Turquia se deteriorarem. Os dois países continuam próximos. Lembrem, em Jerusalém, há o quadrilátero judaico, o cristão, o muçulmano e o armênio, onde está o Portão de Jaffa. Qualquer um que circulou na área viu os cartazes do Genocídio Armênio.

Os EUA argumentam que a Turquia é um membro fundamental da OTAN. Mas apenas isso não justifica. A França reconheceu o genocídio e integra a OTAN. Obama sabe que o genocídio ocorreu e disse, quando senador, que era obrigação do então presidente George W. Bush de reconhecer. É sabido em Washington que a AIPAC, principal lobby pró-Israel, ajuda o lobby  pró-Turquia (sim, muitos países, e não apenas Israel, possuem lobby) para impedir a aprovação no Congresso de uma resolução reconhecendo o genocídio, defendida pelo lobby armênio. Neste ano, a AIPAC indicou que não ajudará mais os turcos. Um ótimo avanço. Mas não se sabe se suficiente para os EUA reconhecerem o genocídio.

Por último, não podemos esquecer da própria Turquia. É um absurdo uma nação que se diz democrática e com uma economia emergente e desenvolvida como a turca não reconhecer este genocídio. Ainda mais levando em conta que foi a entidade “Império Otomano” e não a “Turquia” que cometeu o genocídio. Até pouco tempo atrás, era crime sequer mencionar o genocídio dos armênios. Os turcos agem de forma oposta à da Alemanha, que assumiu os crimes do nazismo e hoje não tolera mais antissemitas, como o líder do grupo islamofóbico (anti-Islã) Pegida fantasiado de Hitler – não se esqueçam que a extrema direita europeia não apenas é islamofóbica como antissemita e em alguns casos neonazista. Mas, voltando à Turquia, o mínimo que se espera, é admitir seus erros no passado. Todos os países do mundo têm mancha. O Brasil teve a escravidão, por exemplo. Os EUA, até bem pouco tempo, tiveram a segregação. A França cometeu crimes contra a humanidade na Guerra da Argélia. A Argentina teve a Guerra Suja.

Guga Chacra, comentarista de política internacional do Estadão e do programa Globo News Em Pauta em Nova York, é mestre em Relações Internacionais pela Universidade Columbia. Já foi correspondente do jornal O Estado de S. Paulo no Oriente Médio e em NY. No passado, trabalhou como correspondente da Folha em Buenos Aires

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